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Tudo de Bom

Seu perfil na Internet a descrevia assim: “Carol, 24 anos, loira, olhos verdes, 1,72 m, 57 kg, busto/quadril 90 cm. Curso universitário. Gosto de leitura, viajar, curtir praia e natureza”. Sua citação favorita: “Tu te tornas responsável pelo que cativaste”.

Apesar de verdadeiro, omitia que nunca tivera um namorado e que, de um tempo para cá, resolvera mudar este fato que era motivo de chacota no trabalho e na faculdade.

Um dia aparece entusiasmada na escola e conta às amigas:

-  Conheci um cara lindo: moreno, olhos cor de mel, bronzeado, um metro e oitenta e cinco.

-  Onde? Onde? – Perguntam as amigas.

-  Na Internet. A gente se falou ontem à noite. Ele é demais...

-  Que legal. – Completa uma das amigas, já sem tanto entusiasmo.

Nos dias que se seguem ela trás novidades: “Ele falou comigo ontem de Fortaleza. Está lá a trabalho. Ele viaja muito por todo país a negócio.”; “Descobri o carro que ele tem: uma Mercedes.”; “Ele tem uma transportadora.”; E, finalmente: “Ele quer me conhecer pessoalmente”.

As amigas, pouco animadas de início, aos poucos foram se contagiando pela emoção da amiga e, como uma certa inveja dela, começaram a sonhar com a primeira noite. Tanto que lhe deram de presente uma lingerie sexy vermelha e vários conselhos que iam desde dicas de beijo até como fingir um orgasmo!

De comum acordo, ela e as amigas, decidiram que o melhor lugar para o encontro seria São Paulo, onde ele morava, pois aqui ela ficaria muito tensa e exposta a comentários. Suas amigas até fizeram uma vaquinha para lhe pagar uma suíte nupcial no Cæsar Park, na Augusta.

Marcaram o encontro no saguão do hotel para um drink para tomar coragem e dali para o quarto, para a grande noite, quando finalmente...

Ele chega. Diferente do que imaginara: Calça jeans com barra feita, camiseta regata, mulato, uns cem quilos, dentes mal cuidados. Olha para ela e vê: uma loira meio branquela, daquelas sem sal, nem açúcar, cabelos e olhos sem brilho, fleumática!

Durante a conversa ela, que havia entendido mal, ou ao menos como lhe convinha entender, descobre que a Mercedes era um caminhão, próprio é bem verdade, e suas viagens pelo país eram como caminhoneiro.

Após uma conversa, cheia de “és” e “pois és”, que não fluía como nos papos pela Internet, ele diz:

-  Bem...Acho que vou indo. Me escreve, tá? – Disse meio sem graça.

 

Na escola as amigas não vêem a hora de falar com ela:

-  Conta! Conta! Como foi? – Dizia uma.

-  Doeu? – Perguntava outra.

-  Ele foi paciente com sua primeira vez? – Especulavam.

E ela, envergonhada, sem saber o que dizer, disse:

-  Foi...Foi tudo de bom! – Chupando o ar entre os dentes, revirando os olhos, simulando um orgasmo tal qual aprendera com as amigas.