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Quem quer que nos visse,
acharia que éramos namorados, ou algo mais. Andávamos
juntos e bastante próximos, muitas vezes de mãos dadas
ou abraçados; os carinhos distraídos entre nós eram
freqüentes, mas não havíamos, até então, trocado um
beijo sequer ou qualquer outra carícia mais íntima. Mas,
desde que nos conhecêramos, sempre estivemos próximos e
juntos – muito próximos e muito juntos, juntos e por
nada.
Sem sobra de dúvida era uma
paixão, das maiores que se possa imaginar, mas uma
paixão diferente que, creio, nenhum de nós havia
experimentado antes, mas uma paixão distraída. Poucos
eram os dias que deixávamos de nos ver. Sempre cada um
de nós tinha um bom motivo para nos encontrarmos, ora
era um palpite um no trabalho do outro, um cinema, a
ajuda para escolher uma roupa ou um presente, uma festa
para se ter companhia ou mesmo um simples café no meio
da tarde para quebrar o dia.
Um dia contei-lhe de meus
amores, outro, ela, os seus; de sua infância pobre em
uma cidade de praia – ela adorava o mar; a minha em uma
pequena cidade do interior – eu adorava a paz.
Contar de nós, porém, não
daria um filme ou um livro, pois nada tinha de tão
empolgante como nas grandes histórias, ou triste ou por
demais alegre – éramos apenas dois amigos que gostavam
muito um do outro.
Atenho-me, então a contar o
que julgo tenha sido o dia mais importante de nossa
convivência: quando falamos do futuro. Tínhamos, com se
pode imaginar, dificuldade em saber o que exatamente
sentíamos um pelo outro.
Resolvemos tomar um vinho e
papear um pouco mais a sério. Fomos à minha casa. Fazia
muito frio e um vinho e um fondue caíam bem.
Conversávamos animados por toda a noite que precedia um
sábado sem compromissos. Falávamos de cada um de nós,
dos sonhos, planos, ideais e muitas outras coisas que
não posso me lembrar, apenas de uma vontade comum: ela
queria, no futuro, quando pudesse, morar na praia e eu,
como na infância, em uma cidade pequena.
- Talvez
Paraty – ela sugeriu, com um sorriso, típico seu,
ingenuamente malicioso.
Concordamos com um brinde,
finalizando a segunda garrafa de vinho:
- À
Paraty!
Quando demos por nós, a
conversa, começada às oito, avançava às três da manhã.
Rimos do tempo (não sabia que ele ria de nós também),
rimos de nós e eu lhe disse, quase pedindo, com preguiça
de quem teria que levá-la:
- Você
vai embora a essa hora? Fique e durma aqui.
- Tá
frio, né? Você tem algo para eu pôr? – com o mesmo
sorriso.
Peguei uma camiseta grande
que, nela, parecia uma camisola. Na cama, apesar do
sono, a conversa continuava. Ela finalmente se acomodou,
de costas para mim, ajeitei seus longos cabelos pretos
que se espalhavam pelo travesseiro, de modo a lhe
aparecer sua tatuagem no pescoço, abracei e beijei-lhe a
nuca. Aproximei-me ainda um pouco mais e entre suas
pernas, pus a minha e, assim, abraçados, adormecemos.
Lembro-me de ter acordado algumas vezes, nossos corpos,
agora quentes, aconchegados. Algumas vezes ela se
ajeitava ou, acordada, acariciava meu braço cuja mão
descansava sobre sua barriga e, distraída, brincava com
seu piercing no umbigo.
Acordamos com o sol pela
janela que me esquecera de fechar. Ele iluminava seu
lindo rosto que beijei para lhe desejar um bom dia. Ela
me retribuiu o beijo e levantou-se, desfilando como uma
criança alegre pelo quarto com minha camiseta que
deixava a vista suas belas coxas. Levantei-me em seguida
e ela já se banhava com a porta aberta, dentro do
banheiro via sua silhueta através box, algo
realmente excitante e encantador. Ela saiu de lá
enrolada na tolha, com os cabelos negros molhados e,
enquanto eu também me banhava, ela se sentou e ficamos a
conversar. Imagino, agora, que também visse meu vulto
pelo box e talvez tivesse os mesmos pensamentos.
Fizemos nosso café da manhã
e continuamos nossa conversa sobre Paraty: caminhadas na
praia, o Festival Literário, o pôr do sol, sem TV ou
Jornal, tocar violão na varanda de casa com um café bem
forte. Passamos todo o dia juntos. Saímos para caminhar,
almoço, música, bons papos, quase como uma lua-de-mel. À
noite, porém, ela dormiu em sua casa.
E assim, distraídos, se
seguiram, como antes, os nossos dias. Estranhamente,
porém, começaram a vir cobranças de amigos, parentes,
curiosos, e, finalmente, as nossas. Aos poucos, então,
nos afastamos, até que ela foi trabalhar em outra cidade
distante. Hoje nos vemos pouco, uma vez por ano, mas
sempre conversamos pela Internet ou telefone. Falamos da
vida, dos amores: ela quase se casou; minha última
namorada não gostava dela.
Às vezes, penso que perdemos
a hora, às vezes não; não para nós, mas, talvez
distraídos, talvez Paraty!
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