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Sete Vidas
 

Na juventude e na infância, como é próprio da juventude e da infância, nunca pensara em quanto tempo iria viver. Aos vinte e cinco comemorava a meia vida, afinal, parecia nessa época, que cinqüenta anos seria tempo suficiente de vida, pois pouco se teria a fazer daí em diante - o que foi feito, foi feito.

No fundo, todos temos a idéia de viver apenas o dobro do que já vivemos, pois esta quantidade, para cada um, é uma vida. Custa para se chegar aos dez anos, tanto, que mais dez parece um tempo enorme, porém aos cinqüenta, que é quanto comemorava hoje, ao contrário, parece que chegou muito rápido, vê-se que não se fez tanto quanto queria ou poderia, com a diferença que mais cinqüenta são pouco prováveis, embora dê, esperançoso, para repetir a brincadeira dos vinte e cinco...Meia vida!

Ainda jovial, para idade, pesava menos do que quando se casara, aos trinta e era mais forte. Corria todos os dias de manhã, antes do trabalho, e, hábito que adquirira quando os filhos eram menores, nadavam juntos três vezes por semana, no final de tarde, como nesta quarta, que levava os filhos de volta para casa da ex-esposa.

Tinha mais coisas para comemorar hoje e mais motivos para querer viver bastante: estava apaixonado, por uma garota, se assim podemos chamar uma garota de quarenta anos, que conhecera há exato um ano, em seu aniversário, levada por uma amiga à festa, e assumiram esta data como aniversário de namoro.

Estava um pouco afobado, pois, apesar de mais de dez anos de separação, ela se incomodava com o bom relacionamento que mantinha com a ex e como já tivera um namoro terminado por conta de um mal entendido do tipo, um telefonema...Mas isto é outra história.

Ao chegar, sabia que teria ainda que receber os parabéns e os presentes e, apesar dos seus bons motivos para se apressar, não queria parecer grosseiro.

Entraram e rapidamente percebeu que haveria de demorar mais que o planejado: havia na casa três ladrões, armados! Sabia, pela lógica, que carro, ainda mais no seguro, e outros objetos, compram-se. Tentou acalmar todo mundo, inclusive os ladrões, que apesar de bom tamanho, dois não contavam com mais de vinte e poucos anos e o outro, uma criança, uns quatorze anos; mas, certamente, pela profissão, já tinham passado da metade da vida.

Na sala, com os filhos e a ex-esposa, sob a mira de um revólver, encarados por um rapaz não muito seguro do que fazia, enquanto esperavam que os outros dois terminassem o rapa nos quartos, sentia o telefone vibrar no bolso. Estava atrasado, mas não poderia atender, mas, desta vez, diferente do outro mal-entendido, teria testemunhas, até um B.O. Recordou-se, quieto, enquanto esperava, das sete vidas que julgava ter e enumerou as já “perdidas”: fora atropelado aos sete anos, sofrera dois acidentes feios de carro, aos vinte e três e outro aos vinte e nove, e um de bicicleta, aos quarenta e um, perfazendo quatro vidas, sobrando portanto três, que, bem utilizadas, daria para ver os 500 anos de São Paulo! Quis rir, mas não achou de bom tom. Será que esses putos vão levar meus presentes? Estavam em cima da mesa junto ao bolo. Essa merda não pára de tocar.  Finalmente, lembrara da brincadeira dos vinte e cinco anos...MEIA VIDA. Seria hoje?

Voltaram os dois ladrões carregados de malas, armas na mão, quando o menor deixou o seu revólver cair e, pelo som que fez ao tocar o chão, era de plástico! Levantou-se enfurecido e partiu para cima do que os vigiava, que, com a arma em punho, disparou direto em seu peito, mas, como era de se prever, a arma era de espoleta e ele bateu tão forte no rapaz, pela raiva de ousar assaltá-lo em pleno aniversário, que este caiu no chão sem se levantar, tomou-lhe a arma de brinquedo e correu atrás dos outros que sumiram.

Já com vários vizinhos em casa, amarrado o ladrão, à namorada explicado o atraso, esperando pela polícia, contava a todos a história de seu ato heróico e irresponsável. Afinal, nem tão heróico, nem tão irresponsável: as armas eram de brinquedo e, como sabemos, os ladrões, apesar do pouco a perder, quando não têm raiva, têm medo. Brincando com a arma dizia: “Nem vou descontar uma de minhas sete vidas, ainda continuo com três”. Mirou no relógio da cozinha, que marcava 19h40, a hora que nascera, disparou e viu o relógio parar com o tiro. Ninguém disse nada, todos brancos, e ele emendou:

 Acho melhor cuidar bem das duas vidas que me restaram! – guardando o relógio de recordação.