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Eu, seo Terézio?!

 


Eu acabara de me recuperar de hepatite. Era o primeiro dia de aula depois de quatro semanas em casa. Era uma aula de biologia. Chata como sempre, a aula seguia em silêncio, quando o professor pára de falar e se dirigindo a mim fala:

-  Fais!

-  Eu...seo Terézio?! Tô quieto! Não fiz nada. – Expliquei rapidamente.

-  Você sarou? Já está bom? O que teve?

Acho que foi a primeira vez que conversamos.

Passaram-se uns meses. Sentávamos no fundo da classe do Colégio Padrão Vestibulares, eu, o Júnior Maziero e o Zé Renato Landgraf. O Zé Renato tinha arrumado uma namorada em Pirassununga. Eu e o Júnior ficávamos falando que ela ia pôr chifres nele. Entrou o seo Terézio e todo mundo quieto, como de costume. Lá pelas tantas, ele fala sobre córneos e eu, de canto de olho, vejo o Júnior rir e provocar o Zé Renato. Ri também. O seo Terézio começa seu discurso:

-  Tem gente que devia ter uma descarga do lado da cabeça. Acho que tem teia de aranha no lugar de cérebro. Não é Fais?

-  Eu, seo Terézio?! Não estou entendendo. – Já pensando em uma boa desculpa para não piorar a minha já fraca nota de biologia.

-  Depois da aula falamos! – E seguiu sua aula.

Depois da aula fui falar com ele. A torcida ali para ver eu me ferrar. Zé Álvaro, João Jair, Júnior, Zé Renato, Guilherme Cury, Ítalo Soriano, Chico Delega, entre outros.

-  O que aconteceu seo Terézio?

-  Não se faça de cínico, Fais. Quando eu falei de córneos você riu.

-  Ah! Foi isso, seo Terézio! Eu logo imaginei...Vou falar do que eu ri, mas se o senhor me perguntar, não digo quem falou: O senhor cortou o cabelo bem curtinho e alguém falou lá atrás que o senhor ia fazer o tiro de guerra. E como o senhor não tem mais idade para isso, eu ri.

Ele, acho que fingindo engolir a minha história, em consideração à minha criatividade, pois de bobo não tinha nada, desculpou-se pelo mal entendido e assim começou nossa amizade, no primeiro colegial.

No verão, à tarde, jogávamos futebol no caiçara, no treino dos veteranos. Ele adorava contar para quem me conhecia uma história que o seo Almir, professor de matemática, craque de bola, com passagem no Flamengo e famoso por ter anulado o Pelé em um jogo XV e Santos, havia me passado uma bola de cara para o gol e gritado, “Fais, faz!”, “E ele fez”, arrematava rindo.

E, a estes amigos, que em geral era o pessoal de São Carlos que ia dar aulas na Fundação, eu contava a história do córneos. Até que um dia, criei coragem e contei ao seo Terézio – nunca o vi rir tanto.

Quem o conhecia como professor, sério, bravo e chato, não conhecia o seo Terézio. Toda sexta, quando voltava a Jaú, depois de uma semana de aulas na UFSCar, ia à Fundação ver as meninas que faziam cursinho e conversar com meu amigo, o antigo professor chato.

Hoje, ainda em São Carlos, quando fiquei sabendo de sua morte, lembrei de vários professores “chatos” que hoje tenho saudades: D. Graciete, Miltão Fraschetti, seo Adônis e D. Gladys, Stelinha Midena (na época Piragine), D. Ivani Fiorelli, seo Almir, seo Germano e, particularmente e especialmente de uma – Dona Yvete Grizzo.

Espero que muitos deles ainda possam ler isto.