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Saca-rolhas

 


Nem bonita, nem feia; nem alta, nem baixa; nem gorda, nem magra; vestida de forma recatada e discreta. Simplesmente uma pessoa comum, daquelas que não se destacam.

Chega ao curso um pouco atrasada e, sem chamar a atenção, senta-se no meio da sala. O professor repara nela, pois além de chegar depois, parece à procura de algo. Ele, da posição que está, à frente e ao alto, e pela experiência que tem dando aulas e lidando com pessoas, percebe uma certa inquietude em seu olhar, que, sem que outros percebam, passeia e mede as pessoas sentadas à sala, como se procurasse descobri-las.

Ao término da aula, pouco antes do almoço, ela se aproxima do professor e diz:

-  Foi a melhor aula de toda minha vida!

- Que bom que você tenha gostado. – Ele, tentando manter um tom formal, mal podendo conter a alegria de tamanho elogio.

Ela faz algumas perguntas de importância menor, às quais ele, muito solicito e prestativo, dá longas explicações e, ao fim, sugere:

-  Almoce comigo e continuaremos esta conversa.

Durante o almoço descobre um pouco sobre a aluna que chegara atrasada: ela, de família simples, advogada recém formada, morava em outra cidade. Viera fazer este curso, um tanto caro, mas que seria de extrema importância à sua carreira, afinal um curso que ensina “Decifrar Pessoas: como entender e prever o comportamento humano” através da leitura dos sinais que as pessoas emitem o tempo todo, certamente ajuda qualquer um, em qualquer profissão ou situação.

-  Além do curso ser dado por um psicólogo tão renomado, elegante, charmoso e, por que não dizer, bonito. – Nas palavras dela, como quem reunisse toda coragem para dizê-lo, elogia.

Ele, encantado, pela simplicidade da jovem, pela leitura que fazia das qualidades do professor, no caso ele mesmo, e já delineando alguns planos, não tão nobres para a semana de estada da garota em sua cidade, a convida para se hospedar em sua casa, afinal ela “economizaria o dinheiro do hotel”.

Já à tarde, com o intuito de impressioná-la, pede para que a isentem de pagamento – afinal o que não se faz por uma “fã de carteirinha”.

Instalados em seu apartamento, ele faz um macarrão e abre um vinho. A moça recatada e educada é só elogios: ao apartamento, pela ordem e organização; às fotos dos filhos, “lindos!”; ao macarrão, que nem era lá essas coisas, ao vinho e, em particular, ao saca-rolhas, “nossa nunca vi um saca-rolhas como esse. Genial, como tudo em você!”

Ele não se contém, aproxima-se e lhe dá um beijo. A menina recatada, até em então, desaparece...dando lugar a outra mulher.

Mas como este não é um conto pornô-erótico, vou me resumir nesses detalhes, apenas dizendo que assim foi semana: aulas, almoços, noites de prazer e luxúria; e ele, baseado nos comentários dela, descobrindo-se um homem bonito, viril, inteligente, com beijos deliciosos etc. etc. etc.

Acabada a semana ela se despede, prometendo que voltaria em breve para vê-lo, pois nunca estivera com alguém assim em toda sua vida. Como não cumpriu a promessa, ele, a muito custo, descobre seu endereço e vai lhe fazer uma visita de surpresa: a descobre em um prédio de luxo. Convidado para subir, leva consigo o vinho que ela tanto gostara: Trivento, um argentino, tinto e encorpado. Impressiona-se com o belo apartamento e com ela mesma: outra pessoa – bonita e elegante!

Na cozinha, ao pegar o saca-rolhas para abrir o vinho, vê  um igualzinho ao seu, exceto pela cor – o saca-rolhas que ela tanto elogiara e ficara admirada...E, como um especialista em conhecer pessoas, entendeu tudo. Levantou-se e saiu, sem se despedir.

“O velho truque do saca-rolhas! Sacanagem!”.