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Que Nojo!

Um consenso que havia entre os pais e educadores da escola em que Bia, esperta menina de sete anos, estudava, era que tudo deveria ser contado de forma clara e objetiva às crianças. Virava e mexia tinham palestras, viagens, acampamentos e tudo mais que melhorasse a formação, quase sempre com a integração dos pais - uma escola moderna.

O passeio do final de semana da primeira série era ao zoológico em São Paulo. Vários pais se animaram, pois muitos não conheciam o lugar. Era como todo mundo voltasse à infância.

Os alunos estavam bastante empolgados, exceto pela companhia dos pais, que os obrigavam a assumir personalidades diferentes das que têm na escola.

Iam de ônibus. A divisão inicial, escolhida pelos próprios alunos, era os pais e professores à frente e os alunos no fundão. A classe era criativa! Dava para perceber pelo repertório: “Motorista / Pode correr / Primeira série não tem medo de morrer”; ou “Motorista / Não corre não / A minha mãe vai morrer do coração”. Tudo muito alegre e divertido. Refrigerante, que caía pelo chão, balas e chicletes que grudavam em tudo, salgadinhos dos mais diversos tipos, enfim, uma típica excursão ao zoológico.

Lá também tudo normal. Os pais, que muitas vezes sabiam menos que os filhos, faziam o seu papel óbvio: “Os cangurus são da Austrália...”; “Capital da Austrália? Sidnei. Não, Melbourne. Quer um lanche?”; “Os leões são da África”; “Emu?! Vamos tomar mais um sorvete?” – Afinal nada como preencher certos vazios com comida e TV.

Mas, lá pelo final da tarde, quebrando a monotonia do passeio, um garoto grita:

- Corre, corre! As tartarugas estão transando!

- Elas estão fazendo sexo. – Emenda a Bia, nitidamente interessada no assunto.

E todos correm para ver o que se passa. Entre os pais, aquele silêncio de “o que eu digo agora?”. Sem o que falar, ficaram quietos, mas certamente pensativos no que dizer quando perguntados.

A viagem de volta, para alívio dos pais, com todos exaustos, seguiu em paz.

À noite, já em casa, o pai da Bia, tentando se antecipar às perguntas:

- Filha, no zoológico vocês falaram que as tartarugas estavam fazendo sexo. Você sabe o que é isto? – Perguntou em seu melhor tom didático.

- Mais ou menos pai. – Responde como quem procurasse uma resposta adequada ao pai.

- O que é...para você? – Insiste.

- Ah! Pai...Sei lá...É quando encosta o pipi na xoxoca.

- E você sabe para que se faz isto?

- Ah! Mais ou menos... – Assumindo aquele jeito tímido, de quem não sabe, na frente do pai.

- Filha, lembra da história da sementinha? De quando se quer ter filhos? Que o pai dá a sementinha para a mãe pôr no ovinho?

- Sei...

- Então é assim que os animais fazem para dar a sementinha: sexo.

- Ah! Pai...Mentira!

- É sim!

- Mas se fosse assim...A gente também é animal...Então a gente faria sexo para ter filhos.

- Mas faz! – Fazendo um sim com a cabeça e confirmando tudo, feliz por ter achado uma maneira de explicar à sua filha.

- Pai...Que nojo! Nunca vou ter filho.