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Advirto que não lhes será
dado saber como eles se conheceram, até porque não sei
muito bem e não poderei, por motivos diversos, saber
como foi que se deu. Mas o fato é que se conheceram e,
por aqueles razões que não se sabe bem ou explicá-las
nada se acrescenta ao caso, gostaram um do outro.
Passaram a conversar todas
as noites através da internet. Nunca tinham se visto,
mas, confessado depois, apreciaram os acentos, pontos e
vírgulas que ambos colocavam, o que assegurava um certo
nível de cultura, algo que, depois de certa idade, é
muito desejável nos amigos e em nós mesmos.
Depois de alguns dias,
curiosidade quase inconfessável que habita em todos,
trocaram fotos, o que causa em geral certa decepção em
algum, quando não nos dois, mas não foi este o caso. Não
apresentavam nenhuma grande anomalia física, nem em
marcas, nem em peso, tão comum hoje em dia,
principalmente entre os que estão sós, não se sabendo se
um causa o outro, ou se é ao contrário.
Tinham apenas as marcas do
tempo, aliás, desejáveis em todos, pois trazem consigo a
vivência e maturidade também desejáveis. Eles tinham as
marcas, vivência e maturidade que ambos buscavam e tão
difíceis de se encontrar. Apartados dos cônjuges, mas
não dos filhos, dividiam-se entre o trabalho, as crias,
ainda não formadas, e íntimos desejos que, no fundo, só
cada um verdadeiramente os sabe.
Fato é que após bate-papos,
e-mails e alguns telefonemas, apaixonaram-se. Uma
Paixão Pascalina,
homenagem que faço, nestes tempos de internet, a Pascal,
Blaise Pascal, filósofo, matemático, físico,
teólogo e escritor de origem francesa que, entre tantas
coisas, fez a primeira máquina de computar, que quer
dizer calcular, precursora do computador, que tantos
bens e males tem trazido à humanidade, sem que pudesse
ele naquele tempo, nem nós neste, saber se, no cômputo
geral, acabará trazendo mais bens ou males, e nem mesmo
neste caso particular.
O que mais os aproximava,
ironicamente, seria o que mais os afastaria: pessoas
maduras e vividas não abandonam suas responsabilidades
com filhos, trabalho e tudo mais e, se abandonassem,
assim não mais seriam. Morava um em Santo André e outro
em São Carlos, que embora santos, as cidades e não eles,
pois já não se faz mais santos como antes se faziam, não
poderiam intervir neste caso com o criador, pois este,
até onde podemos notar, não mais se mete, se é que se
meteu um dia, em assuntos menores, principalmente
ligados à internet, pois nem eles, nem Pascal, nem
Platão, poderiam prever casos assim.
E estas cidades, para casos
de paixão, que normalmente chegam às carnes, são tão
distantes como o céu e o inferno, ou Quixeramobim e
Guaporé, se é que alguém sabe onde ficam, além de Chico
e Gil, não tendo eles as usado apenas pela sonoridade e
rima.
Como nem só de pão e sonhos
vivem o homem e a mulher, restava ainda a possibilidade
de se conhecerem pessoalmente e viver, mesmo por pouco
tempo, sua paixão, aí não mais
Pascalina.
Mas isto, caro leitor,
também não lhes será dado saber, pois nem eu mesmo sei e
se souber, quando souber, não poderei contar, porque,
pelo menos para vocês, está história acaba aqui.
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