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O X do Problema

 


Um belo dia, sem mais, nem menos, pediu demissão. Trabalhava há uns três anos na empresa. Bom salário, plano de carreira, bons colegas, vários benefícios, mas faltava algo. “Coisas da juventude!”, definiu um colega mais velho, com um tom de voz que oscilava entre a sabedoria da maior idade e a inveja dos rompantes juvenis – Ninguém nunca soube o que ele realmente quis dizer!

Quando perguntado se tinha uma oferta melhor, respondeu que não. Se tinha algum problema na empresa, respondeu que não. E com nãos foram respondidos se queria tirar umas férias para pensar melhor, se queria mudar de departamento, se queria transferência para outra cidade, para outro país etc. Não, não e não. Apenas queria fazer outra coisa, mas não sabia o quê.

Não ficou um dia sem emprego. Ainda na mesma noite, conversando com um amigo soube que uma empresa, de média para pequena, no interior, queria desenvolver seus próprios sistemas, pois não se acertava com os softwares comprados.

Para os padrões que conhecia, não poderia chamar aquilo de emprego: o salário era bem menor, a empresa funcionava segundo a vontade do dono, um velhinho gordo e bonachão, que tinha cursado até a terceira série primária. E, para piorar, a empresa, que outrora ia bem, atravessa uma grande crise. Aceitou o trabalho! E põe trabalho nisso!

Logo no primeiro mês quis sair. Viu que sua tarefa não era nada fácil. Ficou conhecido como “o garoto que queria mudar tudo”. Como não tinha chefes, nem subordinados, conversava direto com seo Ulisses, o dono, e foi ter com ele:

-  Seo Ulisses, assim não dá para trabalhar. Ninguém tá nem aí. Cada vez que a gente fala de organizar um setor, não dão a mínima. A empresa só tem problemas em todos os setores, da contratação à demissão, da produção às vendas, passando pelo almoxarifado.

-  Foi por isso que eu lhe contratei. – Respondeu seo Ulisses, após duas tragadas no cigarro.

-  Como assim?

-  Nós temos vários problemas de organização na empresa. Cada um faz as coisas como quer. Tendo um sistema único, todos têm que fazer como o sistema pede. E quando vierem reclamar comigo, digo que o responsável pelo sistema é você! Simples! – Disse quase gargalhando.

Decidido ainda a pedir demissão, resolveu dar um pouco mais de corda ao velho:

-  Explique melhor qual o seu plano.

-  Bem...Meu filho, o ser humano é uma coisa muito engraçada. Nossa empresa é antiga e todo mundo trabalha aqui há um tempão. Estão todos acostumados com o que fazem e não querem mudar. – Fazendo uma pausa para acender outro cigarro.

-  Eles, no entanto, são honestos e trabalham bastante. – Continuou, seo Ulisses. - Mas foram muito mal acostumados...por mim, que sempre resolvi todos os problemas. Agora, como se trata de computadores, posso dizer que estou velho para aprender e eles que se virem, que resolvam os problemas que aparecerem.

-  Mas será que conseguem? – Perguntou nosso jovem, já reconsiderando se saía ou não do emprego.

-  Resolver problema, qualquer pessoa consegue, desde que saiba realmente qual o problema que tem para resolver. O difícil é saber qual é o problema.

-  Mas nós temos um monte de problemas. Nós somos um problema.

Da sala de seo Ulisses, avistava-se a loja, e ele, não mais com seu tom cordial, respondeu:

-  Não. Nós só temos dois problemas: está vendo aquele cliente? Por quê ele não compra mais? Ou seja, como faço para vender mais e mais rápido para ele? Para resolver este problema, Temos que descobrir e resolver todos os outros: contratação, produção etc. Resolvido este, resolveremos todos os problemas internos. O outro: Está vendo aquelas pessoas passando? Por quê eles não entram e compram? Como faço para elas comprarem e voltarem a comprar? Como faço outras pessoas passarem por aqui? E aí resolvo todos os problemas da empresa. Simples, não?

-  Creio que sim. Ao menos o senhor resolveu o meu problema.