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O Meu Tio Que Toca Violino

 

Por mais que eu tente descrever a personagem de quem falo, não conseguirei. Vocês devem imaginar que já conheceram alguém assim, que toda turma tem um sujeito parecido, mas não se engane, o Risadinha era único. Esse apelido ele ganhou logo que entrou na faculdade, pois antes de fazer um comentário didático, dava um pequeno sorriso, uma pequena risada de canto de boca, como se desculpasse por saber mais que nós. É bem verdade que sabia um pouco de tudo, mas era irritante como fazia questão de deixar isto bem claro.

Logo no primeiro ano de faculdade ganhou o “Chato do Ano”, mas isso foi só no primeiro ano, pois nos anos seguintes era hors concours e o concurso passou a se chamar o “Troféu Risadinha”. Ela tinha ainda outros apelidos, mas o preferido mesmo era IÊ. Todo mundo, ao falar, por mais que fale, dá uma respiradinha, permitindo assim que outro pegue a palavra, mas ele não, ao acabar um assunto, emitia um som que infelizmente aqui não posso reproduzir adequadamente, mas era algo como um ieeeê, longo e gutural, seco e abafado, enquanto recuperava o ar e se punha a falar de outro assunto qualquer.

O Iê entrou um ano após a nossa turma, mas, bom aluno, puxava matérias. A matéria era Séries e Equações Diferenciais, durante a copa do mundo, dia de jogo do Brasil e todos nós, pouco antes do almoça, havíamos levado o maior ferro na prova – todos menos ele. Por esses motivos, ferro e copa, na fila do Restaurante Universitário, o assunto era copa e ninguém queria falar de prova, mas ele insistia. Nós voltávamos à copa, mas ele ainda na prova que só ele tinha ido bem. Ele dava sua risadinha e começava a falar, soltava o som gutural e emendava com outro assunto qualquer e novamente um ieeeeê e voltava à prova, uma risadinha e... era irritante. Foi quando, falando das equações diferenciais disse algo sobre notas harmônicas, ao que, sem dó, maquiavelicamente, antes que ele tomasse ar, emendei:

-  Você sabia que eu tenho um tio que toca violino?

Foi um silêncio geral. Sua risada, pela primeira vez sumiu. Ele se pôs a pensar e durante algum tempo não emitiu um som sequer. Voltamos a falar de copa do mundo, almoçamos, tomamos café e ele ainda sem dizer uma palavra! Ele olhou para nós, respirou, como se fosse dizer algo, mas mesmo assim nada disse. Não assistiu ao jogo conosco e só o vimos no dia seguinte.

Durante o jogo, o Waldir ainda perguntou:

-  Você tem mesmo um tio que toca violino?

-  Claro que não! – Respondi – Mas ele foi bem útil.

-  Ao menos ficou quieto um pouco. O coitado tá pensando nele até agora! – alguém completou.

Esse meu tio passou a ser invocado cada vez que ele esboçava seu sorriso.

Depois daquele dia, o “meu tio que toca violino” ficou famoso em outros meios, atravessou fronteiras e sempre que necessário era invocado, às vezes em coro.

Teve até o dia que fomos tomar cerveja com um amigo que queria comparar as marcas... Bem, mas isso é outra história que um dia eu conto.