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Outros Carnavais 2

Era uma época que os bailes e festas eram poucos, por isso muito valorizados. Pela ordem eram Réveillon, Carnaval, seguido da quaresma que não tinha nada mesmo, Baile da Aleluia, Baile de Debutantes, no início da primavera, era realmente o primeiro baile das meninas, lá pelos quinze anos, e o Baile Branco.

Mesmo já tendo debutado, era de praxe as meninas pedirem autorização aos pais. Foi o que fez minha irmã mais velha naquele almoço de domingo:

-   Pai, sábado vai haver um baile. Posso ir?

-  Vou pensar. – Respondeu ele sem mais comentários. Meu pai era muito ocupado e pensava muito.

Conforme se passaram os dias, ela retornava à questão.

-  E aí, pai? Pensou? – Na segunda.

-  Tô vendo.

A semana caminhava e nós, os meninos, fazíamos nossos planos. Bebíamos pouco, pela falta de hábito e pela falta de grana. A concentração era em um bar que o dono preparava nossa bebida preferida: Tibiribi – vulgo pharmácia – a única que o dinheiro dava pra pagar e garantia uma certa calibragem alcoólica que nos daria coragem para enfrentar aquelas garotas que sabiam dançar, com pais e mães à mesa vendo o que fazíamos.

Minha irmã seguia na lida com meu pai, que, como sempre, continuava pensando, vendo, analisando, estudando, em seu eterno gerúndio.

Finalmente chegou o sábado. Eu tinha arrumado um terno meio esquisito emprestado e meu pai continuava pensando. No almoço ele, que finalmente terminara de pensar, diz:

-   Filha, sabe aquele baile? Pode ir.

Ela, calma, olha para ele e diz:

-  Pai, meu baile começava no domingo passado. Quando ia escolher a roupa. Quando ia ver que ia ao baile, com quem iria dançar.  Não quero mais ir.

Meu pai, creio, continuou pensando.

Ela não foi. Eu bebi um tibiribi a mais, passei mal e voltei para casa mais cedo.

Na segunda, na escola, todos comentavam do baile: o conjunto, as músicas, a briga que teve, que durou mais de meia hora, as roupas, chiques das meninas e ridículas dos meninos - em geral o defunto tinha outro manequim. A história que lamentei perder foi do leite do Du, que tentando roubar pão e leite, que ainda era entregue de manhã em garrafas de vidro, em frente a uma casa, o dono apareceu e ele gritou: “Leiteiro”. Entregou o leite na mão do homem e saíram correndo, rindo e gritando “Leiteiro!” – Gritam isso até hoje e eu perdi!

Eu e minha irmã descobrimos o antes e o depois. Meu pai continuava pensando. Eram realmente outros carnavais.