Era uma época que os bailes
e festas eram poucos, por isso muito valorizados. Pela
ordem eram Réveillon, Carnaval, seguido da
quaresma que não tinha nada mesmo, Baile da Aleluia,
Baile de Debutantes, no início da primavera, era
realmente o primeiro baile das meninas, lá pelos quinze
anos, e o Baile Branco.
Mesmo já tendo debutado, era
de praxe as meninas pedirem autorização aos pais. Foi o
que fez minha irmã mais velha naquele almoço de domingo:
-
Pai, sábado
vai haver um baile. Posso ir?
- Vou
pensar. – Respondeu ele sem mais comentários. Meu pai
era muito ocupado e pensava muito.
Conforme se passaram os
dias, ela retornava à questão.
- E
aí, pai? Pensou? – Na segunda.
- Tô
vendo.
A semana caminhava e nós, os
meninos, fazíamos nossos planos. Bebíamos pouco, pela
falta de hábito e pela falta de grana. A concentração
era em um bar que o dono preparava nossa bebida
preferida: Tibiribi – vulgo pharmácia – a única que o
dinheiro dava pra pagar e garantia uma certa calibragem
alcoólica que nos daria coragem para enfrentar aquelas
garotas que sabiam dançar, com pais e mães à mesa vendo
o que fazíamos.
Minha irmã seguia na lida
com meu pai, que, como sempre, continuava pensando,
vendo, analisando, estudando, em seu eterno gerúndio.
Finalmente chegou o sábado.
Eu tinha arrumado um terno meio esquisito emprestado e
meu pai continuava pensando. No almoço ele, que
finalmente terminara de pensar, diz:
-
Filha, sabe
aquele baile? Pode ir.
Ela, calma, olha para ele e
diz:
- Pai,
meu baile começava no domingo passado. Quando ia
escolher a roupa. Quando ia ver que ia ao baile, com
quem iria dançar. Não quero mais ir.
Meu pai, creio, continuou
pensando.
Ela não foi. Eu bebi um
tibiribi a mais, passei mal e voltei para casa mais
cedo.
Na segunda, na escola, todos
comentavam do baile: o conjunto, as músicas, a briga que
teve, que durou mais de meia hora, as roupas, chiques
das meninas e ridículas dos meninos - em geral o defunto
tinha outro manequim. A história que lamentei perder foi
do leite do Du, que tentando roubar pão e leite, que
ainda era entregue de manhã em garrafas de vidro, em
frente a uma casa, o dono apareceu e ele gritou:
“Leiteiro”. Entregou o leite na mão do homem e saíram
correndo, rindo e gritando “Leiteiro!” – Gritam isso até
hoje e eu perdi!
Eu e minha irmã descobrimos
o antes e o depois. Meu pai continuava pensando. Eram
realmente outros carnavais.