Conheceram-se em 12 de junho! E, da maneira que se
deu, daria para se pensar que foram feitos um para o
outro. Isso se dá porque gostamos de achar
coincidências onde não necessariamente elas existem.
Mas assim foram os fatos: ambas as mães deram
entrada à maternidade neste dia e, com todos os
quartos lotados, tiveram que ficar no mesmo. De
início pensaram protestar, pois queriam privacidade,
e o plano médico, caro, assim lhes prometia, mas, ao
menos nessa época, e só nessa, creio, há nas
mulheres um certo companheirismo. Repartiram, assim,
o primeiro quarto e tiveram seus filhos.
Gêmeos. Eram de gêmeos, com ascendente em aquário.
No
entanto, após esses primeiros dias juntos, só
puderam se ver novamente na primeira série. Ambos,
filhos únicos, eram os melhores alunos da classe e
só souberam do fato inicial, sem que nesta época
tivesse muita importância, ao final do ano, quando
dividiam, meio a contragosto, o prêmio de melhor
aluno e os pais finalmente se encontraram.
Nos
anos que se seguiram ora eram amigos, ora disputavam
a atenção dos professores e colegas de classe.
A
primeira vez que ela sentiu algo de diferente por
ele foi quando viu aquele menino pacato e comportado
brigando em uma partida de futebol - não era o
mesmo! Ele queria ganhar, tinha raça, tanto que saiu
aos murros e pontapés com outro garoto maior, sem
pensar nas conseqüências. Apanhou e ela ficou entre
admirada com a coragem e um certo dó da surra que
levara.
Passaram-se alguns anos para que ele a visse de
outra maneira. Já não mais estudavam juntos, pois
ele deixara de ser um bom aluno e atrasou-se nos
estudos. Ele a viu dançando: ela era sensual, bonita
como nunca tinha se feito notar. Pensou em falar com
ela, mas lá estava ela, aos beijos com um rapaz.
Sentiu um certo ciúmes de sua primeira companheira
de quarto.
E
mais anos se passaram. Ele e os amigos bebiam em um
bar para comemorar o campeonato de futebol ganho,
enquanto ela comemorava o ingresso na faculdade. Ele
subiu ao palco, pegou o violão para tocar. Tocava
muito bem. Ela, animada pela bebida, pela faculdade,
pela música, pelo amigo, pegou o microfone e se pôs
a cantar. Eram outros, que finalmente se
encontraram. Apaixonaram-se pelos outros. Ficaram
juntos nesta noite.
À
luz do dia, porém, não era a mesma, ou não era mais
a outra. Eram meio sem graça. O namoro durou pouco
mais que um mês.
Tempos depois, encontraram-se em uma danceteria –
comemoravam o aniversário que, como devem se
lembrar, era no mesmo dia. Ela dançava e jogava o
cabelo e ele, já meio alto pela bebida, acompanhando
seu ritmo, foi lhe dar os parabéns. Juntos ficaram à
noite e assim amanheceram. Encontravam-se durante o
dia e com outros amigos montaram uma banda. Nada
mais os separava. Ensaiavam, cantavam, tocavam,
faziam amor e casaram-se, finalmente.
A
vontade de construir despertava nela a moça que
dançava e cantava que ele tanto queria; e nele o
menino que apanhara sem medo quando pequeno. Assim
fizeram uma vida: estudaram, compraram carro,
fizeram carreira, compraram terreno, tiveram filhos,
construíram casa. Eram outros.
Mas
um dia, sabe-se lá porquê, sem que se possa
perceber, a menina não sabia mais cantar nem dançar;
o menino não brigava mais por nada.
Ela
não era mais a mesma ou não era mais a outra e ele
imaginou que houvesse outro e ela, outras.
Os
outros se foram e ficaram os uns. E como ninguém
gosta de qualquer um, separam-se e apaixonaram-se
por outros.