Jack era seu nome.
Simplesmente Jack. O nome lhe garantiu, desde a mais
tenra infância, pela unicidade, um certo charme e
prestígio perante todos, principalmente as mulheres
que tinham uma certa atração por ele, o nome, e depois
por ele, a pessoa.
Já na pré-escola era Jack
pra lá, Jack pra cá. As professoras enchiam a boca
para falar Jack (djék – para que não paire dúvidas
quanto à pronúncia). Ele era o preferido das
professoras para as festas juninas e tudo mais. As
meninas, apenas por sentir que ele era especial,
embarcavam e assim ele foi se tornando uma cara
popular e sedutor. Certamente isso não aconteceria se
se chamasse João ou José ou ainda Benedito. Enfim, era
Jack.
Meio magrelo, seu corpo
foi tomando forma devido à natação. Aos quatorze anos
era popular entre as meninas e, por conseqüência,
entre os meninos que adoravam os respingos de seu
séqüito.
Mildred, bonita, pouco
mais nova que ele, que também fazia parte da equipe de
natação, meio tímida, como todas, adorava Jack. Tinha,
porém, a consciência que não era para seu bico.
Mantinha-se próxima e foram ficando amigos. Esta
amizade intensificou-se no cursinho, já que Jack havia
reprovado no primeiro vestibular. Estudavam juntos e
ela achava o máximo poder estudar com ele. As amigas
morriam de inveja, afinal, era Jack e Mildred, Mildred
e Jack, pra lá e pra cá. Isso, no entanto, não lhe
garantiu mais que a amizade de Jack. Ele continuava o
rei das meninas e a ela contava suas aventuras
amorosas, como se fosse um outro amigo qualquer.
Separam-se de vez no
começo do ano: ela passou no vestibular e ele não.
Como seus pais mudaram de cidade, ela, agora aluna
universitária, não mais viu Jack.
Na faculdade Mildred se
surpreendeu! Descobriu-se bonita. Seus olhos verdes
eram notados por todos, o seu corpo de anos de natação
se destacava, em especial sua bunda – não havia quem
não olhasse a bunda de Mildred. Foi eleita, logo no
primeiro ano a Miss B da escola. Nos anos seguintes o
concurso mudou de nome: era o troféu Mildred, do qual
ela se tornou hors concours. Era, de longe, a
garota mais popular e assediada da escola, mas
guardava e aguardava ainda em seu coração Jack.
Finalmente Jack entrou na
faculdade. Bixo de Mildred, ele a descobriu e
encantou-se. Formavam o casal da escola: Jack e
Mildred, Mildred e Jack. Ele e seu nome e sua
autoconfiança adquirida desde pequeno, ela e seu
charme e inteligência e sua bunda hors concours.
Assim foi o ano da faculdade. Com Mildred, Jack era um
bom aluno; com Jack, que era muito mais experiente em
termos de mulheres e relacionamento, ela conheceu o
sexo, a paixão e amor. Eram o máximo!
Jack ainda era muito
assediado e não resistia. Era um caso aqui, outro
rolinho ali. Não tinha como durar e não durou.
Mildred, apesar de também muito assediada, todo o
tempo curtia a sua paixão da infância.
Com as férias e o término
do namoro, ela se recolheu. Para não ver Jack, foi ao
litoral do Paraná, Caiobá, onde passaria as férias com
uma amiga - a Val, uma linda amiga morena, também de
olhos verdes, segunda colocada no Miss B, por quem o
Jack tinha uma queda especial. Ficavam sós a semana
toda, ela e sua amiga, exceto nos finais de semana
quando desciam amigos e familiares.
No mesmo prédio, tinha um
apartamento do tio da Val, um empresário, por volta
dos quarenta, bonito e bem-sucedido. Ele, como toda a
praia, se encantou por Mildred e, obviamente, a parte
que nela mais chamava a atenção. Só e carente, flores
e doces, jantares... E ela não teve como resistir aos
encantos de um homem mais velho. E assim foram suas
férias: sexo lento e repetido a exaustão, beijos
demorados, café na cama, tardes na praia, cochilos
vespertinos e noites mal dormidas. Ela sabia pertencer
ao verão e no verão ficaria.
De volta à vida normal
encontra Jack, também saciado de suas aventuras
amorosas, com saudades. Ainda a grande paixão,
declarada por ambos.
Resolvem ficar juntos.
Ela, sem pressa, contendo seu ímpeto abre um vinho e o
beija de forma lenta, o que o excita muito; devagar,
vai lhe tirando a roupa e aos poucos faz amor com ele,
de uma forma que ele nunca havia experimentado com
mulher alguma. E de novo e, mais tarde um pouco, de
novo. Ele, a princípio, sentiu-se, como todos os
homens, o máximo, até cair-lhe a ficha “Onde ela havia
aprendido tudo isso?”
Apesar das tentativas
delicadas de Mildred, naquela noite não se amaram
mais. Ele (não) dormiu pensando nela, pensando nela e
nos outros: “O que ela teria feito durante as férias?
Quantos seriam?”.
Na manhã seguinte, acorda
com os beijos de Mildred. Os carinhos o excitam, mas,
na hora H, vêm os outros homens de Mildred e ele não
consegue. Só pensa nela, excita-se novamente, mas,
mesmo só, os outros aparecem.
Tenta com outras e nada!
Tenta com Mildred e nada! De novo, outras, nada!
Mildred, nada! E sua fama correu escola. Dormia pouco,
falava pouco, estudava pouco e nada mais. Atrasou-se
na escola. Dizem que engordou. Nunca mais apareceu nos
encontros da escola. Quando a universidade fez 35
Anos, falamos dele: as más línguas dizem ter tomado
aquele caminho que ninguém volta, sem retorno.