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Dono de
gado, lojas, fábricas, terras, prédios pelo Brasil
afora, até no exterior, Cândido tornou-se um homem rico.
Ninguém perguntava de onde vinham ele e o dinheiro, até
por que, quando é muito, pouco importa de onde vêm.
Em
Minas, onde mora, poucos sabem como enriqueceu e em São
Paulo, onde tem os seus negócios, creiam-me, ninguém
sabe que é rico!
Chegou a
Uberlândia há cerca de dez anos, havia passado por
vários lugares, ganhado e perdido dinheiro, quase sempre
por causa de mulheres, pois quando não se tem muito,
custa para tê-los, falo, nesta ordem, do dinheiro e das
mulheres.
De
família simples, pouco estudou. Começou a trabalhar
cedo. Aprendia rápido e foi ajudar a consertar os
tratores e carros na fazenda em que morava em Brodowsky.
Todos gostavam do menino, principalmente os mais velhos,
que adoravam seu ímpeto.
A vida
na fazenda não durou muito, precisava de platéia e
mudou-se, aos dezesseis anos, para Ribeirão Preto.
Trabalhava como mecânico. Ganhava bem, mas gastava tudo.
Aos
vinte, querendo pôr ordem na vida, casou-se, montou sua
oficina, teve filhos e, como a mulher não o deixava
gastar, ficaram bem de vida. Mas, como sempre seria seu
futuro, sem querer me adiantar na história, com algum
dinheiro, voltaram as mulheres. Separou-se, ficando
pobres novamente.
Retomando, pois bem era verdade que trabalhava muito,
com alguns sócios, montou outro negócio. Enriqueceu e,
novamente, perdeu tudo, só desta vez por causa dos
sócios e o contador. Percebeu haver mais formas de se
perder dinheiro e que algumas, ao menos, por algum
tempo, davam prazer!
Foi
tentar a vida em Goiás. Montou uma oficina de tratores
e, em troca de dívidas, conseguiu um trator, logo se
tornando dono de uma terraplanagem que novamente o
enriqueceu. Casou-se, mais filhos, mais dinheiro, mais
mulheres, mais separações, mais problemas...como sempre
foi e seria sua vida.
Com o
único bem restante, um carro, mudou-se para Uberlândia;
vendeu-o, comprou outro, vendeu, comprou outros e já
tinha um comércio de carros. Porém, alguns negócios mal
feitos e lá estava, novamente quebrado.
Assim
chegou àquela noite que mudaria definitivamente sua
vida.
Entrou
na Igreja e sentiu-se confortado por haver mais
desgraçados por aí. Tinha lá uma sopa que, se não muito
consistente, nem muito quente, ao menos aquietava o
estômago.
Falava
um pastor, mas não lhe deu muita atenção. Lembrava-se da
infância, da escola dominical, onde ouvia histórias do
evangelho e aprendera a ler, que ainda, como veremos,
serão de grande utilidade.
Foi ter
com o Pastor. Não tinha a menor intenção de se
converter, mas quem sabe arrumava um bico. Em uma
conversa sincera, contou seu passado, pediu ajuda. O
Pastor, profundo conhecedor do homem (e das mulheres
também), percebeu a sinceridade e, principalmente, o
potencial deste, capaz de convencer qualquer um de seus
propósitos. Decidido a ajudá-lo, disse:
– Deus
escreve certo por linhas tortas. Ele o mandou a mim
para, juntos, salvarmos almas pecadoras. O trabalho que
vou lhe dar é de extrema importância e não pode ser
confiado a qualquer um. Você tem que prometer ser fiel
apenas a mim e, por conseqüência, a Deus.
– Eu
prometo – prometeria qualquer coisa.
– Pode
viajar hoje comigo?
– Posso.
– Você
será meu caidor.
– Caidô?
– Disse sem obter resposta.
Sem
pegar nenhum pertence, seguiu de avião a São Paulo,
lugar mais seguro para principiantes desta profissão.
Foi instruído durante a viagem sobre o trabalho. Lá
também tomou sua primeira refeição decente depois de
dias: o café da manhã de um hotel cinco estrelas!
Foram-se aí as dúvidas se seria ou não capaz de exercer
tal papel: caidô.
No
monumental templo da Igreja, lotado, depois de uma hora
de pregação, entra Cândido, gritando, blasfemando,
possuído, até que o Pastor acerta o endemoniado e ele
cai... como ninguém! Foi de cidade em cidade, após esse
dia, o melhor caidor que apareceu. Foi o que lhe valeu o
apelido, em cada novo lugar que chegava: O Caidô!
Assim,
tornou-se o caidor preferido de todos os pastores.
Viajou país afora, conhecendo todos na igreja, seus
hábitos, as pregações, até ser promovido a Pastor e
mudar-se para Campinas, uma boa praça, cheia de boas
almas, dispostas a trocar o pouco dinheiro por muita
esperança.
Seguiu
assim a rotina de todos os pastores, ao menos aqueles
que dão certo: Corcel II e templo alugado, Monza e
templo próprio.
Lá
levava uma vida simples e regrada, auxiliado por bons
fiéis, que traziam outros tantos e, como sempre, algumas
moças que faziam questão de manter o templo e casa do
Pastor Cândido arrumada, além de não deixar que ele
passasse, digamos, necessidades.
O grosso
do dinheiro voltava para Uberlândia. Primeiro umas
terrinhas; uns boizinhos; um predinho, inteiramente
vendido; outro; uma construtora; e, finalmente, uma
holding que centralizava todos os negócios, a qual,
ironicamente, chamou de Okaidô!, hoje sua marca
registrada.
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