Envie-me seus comentários sinceros: críticas e elogios são sempre benvindos!

O Golpe do Milton

Estavam apaixonados um pelo outro. Tanto que romperam uma regra: não misturar trabalho e paixão! A bem da verdade, ela estava apaixonada ainda, ele se deixara envolver por sua beleza, inteligência e poder de sedução, uma paixão verdadeira, porém passageira, comum aos homens que, mais sinceros, ao menos enquanto dura este sentimento que não sabem administrar e, com o curso do relacionamento, perdem essa sinceridade, tentando achar explicações para se afastarem.

Ela tinha uma outra característica muito interessante: era milionária, mas abandonara toda a fortuna herdada do pai, para viver por conta de seu salário.

Trabalhavam juntos e bem, em uma Organização Não Governamental cujo nome convém não citar. Eram apaixonados pela causa, essa sim a paixão verdadeira e duradoura, que muitas vezes transferimos às pessoas que, tendo bons predicados físicos e culturais, termina em algum relacionamento emocional e físico, na maioria dos casos pouco importando essa ordem.

Ambos usavam a sedução, no melhor sentido que esta palavra possa ter, em prol das causas que defendiam e acreditavam. Essa capacidade de criar novos relacionamentos de amizade, interesse e algumas vezes românticos sempre permitira a ambos angariar pessoas e fundos a qualquer causa que defendiam, principalmente no caso desta ONG, que convém não identificar, cujo produto era fantástico e fácil de ser vendido.

Mas paixão é paixão. Apesar de terem se afastado, ela continuava a lhe ligar, dar-lhe vários presentes, ouvi-lo e aconselhá-lo quando triste e apoiá-lo em sua carreira. Ele, gentil, como se deve ser com quem lhe gosta muito, escondia-lhe os casos e evitava contar-lhe mágoas de amor.

E assim seguiram, até que de súbito ela parou de lhe dar atenção, de lhe ligar a toda hora. Não mais lhe atendia prontamente e muitas vezes só lhe retornava as ligações na manhã seguinte. Vez por outra chegava ao trabalho com cara de sono e o cabelo molhado.

Descobriu pela Shirley, a melhor amiga dela, que ela estava tendo um caso com o Milton – um milionário que se recusava a aparecer e muito contribuía com a ONG, conhecidos apenas pelas duas! Como não era mais procurado por ela a toda hora, voltou a lhe ligar, convidá-la para sair, mesmo sabendo que ela estava namorando. Em um desses dias, depois de uns drinques a mais, ficaram juntos novamente e ele a pediu em casamento.

Casaram-se e são felizes. Ela sabe que aqui ou ali ele dá uma puladinha de cerca, mas faz vistas grossas. Ele ainda sente ciúmes do Milton, que ainda liga para ela no meio da noite e sempre que ela atende insiste em vê-la, pois não se desiste fácil de mulheres assim.

Eu, agora vocês e a Shirley, que é quem realmente liga no meio da noite e desliga quando ele atende, sabemos que o Milton nunca existiu, ou ao menos nunca foi apaixonado por ela.