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O Francês

 


Ninguém se conformava quando dona Ester resolveu aprender francês, mas assentiram. “Ela desiste logo”, afirmou a filha; “Assim ela se distrai”, disse um dos filhos; “É bom pros neurônios da véia”, concluiu um neto meio porraloca.

E assim foi. Arrumaram uma professora para ela, pois daria mais trabalho e sairia mais caro levá-la a uma escola. Não durou muito. Ela e a professora não se afinavam. “Tá vendo! Coisa de gente velha”, argumentou a filha em cuja casa ela morava.

Mas ela não se deu por vencida. Como uma criança mimada, insistiu e contrataram agora um professor bem mais jovem. Também não deu certo.

-  Mamãe, eu desisto! Pra que a senhora vai aprender francês? – Perguntou-lhe em tom maternal a filha.

-  Sempre quis aprender francês e vou aprender. Vocês jovens são engraçados: tudo tem que ter um porquê.

-  E como a senhora quer fazer? – Disse a filha, vendo que não seria fácil demovê-la desse objetivo.

-  Vou aprender sozinha! Vou aprender no computador. As crianças não aprendem várias coisas no computador? Nessa tal de net? – Arrematou, referindo-se aos netos.

-  Endoidou de vez! A senhora nem sabe mexer no computador. Nem ligar sabe!

-  Aprendo!

No dia seguinte, apesar dos protestos da filha, tirou da poupança uma graninha e comprou um micro. O único a lhe apoiar foi o neto, aquele meio porraloca, pois vislumbrava a possibilidade da avó, em troca de umas aulas de computação, pôr speedy em casa.

Comprou o computador e o curso de francês em CD.

-  A coroa não deixou barato! Comprou a máquina mais moderna que tinha na loja. Tem até gravador de DVD. Até colocou speedy e deixou compartilhar o acesso! – Contava o neto, com certo orgulho para a turma da faculdade.

Ligar até que ela aprendeu rápido. Um mês depois já sabia entrar na Internet, tinha e-mail e se aventurava em umas salas de Chat.

Sua casa era bem freqüentada pelos amigos do neto. Todo mundo queria conhecer a “velhinha computeira”. Quando não iam à sua casa, conversavam com ela através do MSN.

Nos meses que se seguiram incrementou o equipamento: WebCam, up grade na CPU, um HD maior, monitor de 21 polegadas, scanner etc. Quando perguntada pelos filhos o que queria de natal, não titubeou: “Um tocador MP3 portátil com 512 Mega e conexão USB.”.

Já tinha seu perfil no MSN, Almas Gêmeas e onde mais poderia se pôr anúncios. No fundo, como todo mundo, sonhava mesmo com um namorado – seu par perfeito. “Mas quem vai se interessar por uma velhinha de mais de setenta anos?”, pensava.

Quando, um dia, chega a seguinte mensagem, como um pedido de inclusão no MSN, em francês, aqui traduzida por Marianna, uma amiga da filha:

Bon Jour! Eu me chamo Renné e tenho 72 anos. Vi e gostei muito do seu perfil. Gostaria de conhecê-la. Posso ir ao Brasil ou enviar passagens a você e quem quer que você queira trazer à França – Filha, neto. Tenho sérios propósitos de matrimônio. A minha atual situação financeira me permite tanto morar na França, como no Brasil...Não sei uma palavra de português. Parlez-Vous Français?

-  Caracas...Sabia que tinha me esquecido de algo! Merda! Acho que só vai me restar ter um caso com o Dr. Alzheimer! - Pensou rindo!