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O Caso das Canequinhas

 


Eu (e meus primos também) odiava o Natal. Todo ano nos reuníamos na fazenda de meu avô em Descalvado. Era uma grande festa que ele organizava. Tudo bonito e arrumado, tudo certinho, certinho demais, tanto que dava para desconfiar que havia algo errado lá. Eu, ainda pequeno, não sabia o quê, mas que havia, havia.

Meu avô era estranho. Tinha um quarto na casa que ninguém entrava, diziam que ele guardava neste lá muitas riquezas, troféus e outras coisas que ninguém sabia. Contavam amiúde ouvi-lo chorar quando se trancava no quarto. Em um Natal eu e meus primos conseguimos entrar lá. Se houvesse riquezas, haviam de estar bem escondidas. Mas era estranho sim, tinha muitos objetos, tudo coisa simples, de gente pobre, várias armas e muitas, mas muitas mesmo, canecas. Todas de alumínio, exceto uma, dourada que parecia ser de ouro. Na época pensei que fosse um símbolo, pois outrora Descalvado foi conhecida com Canequinha ou a cidade da Canequinha.

Certo mesmo era que a culpa de tudo o que passávamos era de meu pai e seus irmãos, todos bananas, que só faziam obedecer meu avô, pois era ele quem lhes pagava todas as despesas. Meu avô vivia a lhes jogar na cara que eram “uns bostas”, que havia chegado sozinho, pobre, na cidade e fizera-se ali, só não soubera criar os filhos, “uns bostas inúteis esperando a hora da minha morte. Mas vou demorar. Vou enterrar muitos de vocês... e não hão de ver a cor do meu dinheiro!”.

Sua saúde era boa e não tinha cara de quem iria embora logo. Pelos cantos, falavam que em seu testamento a única favorecida era a Igreja. Havia, pois, os que queriam que ele fosse logo, outros que tivesse tempo de mudar seu testamento e os que simplesmente queriam que ele parasse de aporrinhar todo mundo.

O ritual todo ano era o mesmo: os presentes, iguais para todos os netos, só eram entregues na manhã do dia 25; a ceia da véspera por volta das dez da noite; e a Missa do Galo à meia-noite em ponto na Capela da Fazenda, erguida a São Francisco de Assis, de quem o Vô Chico era devoto. À missa vinham pessoas da cidade e das fazendas vizinhas, já que quem a rezava era o único pároco da cidade, que devia muitos favores ao Vô Chico, dentre eles o seu salário e as reformas da Matriz. Seu papel era falar bem do Seo Chico, de seu bom coração e sua generosidade; o nosso, era ouvir, todos os anos, os elogios. Éramos, desde pequenos, obrigados a ficar acordados e comparecer à missa.

Ele sempre trazia à Ceia um menino pobre simbolizando a acolhida ao Menino Jesus! Esse menino passava o dia conosco, ganhava os mesmos presentes, comia à nossa mesa, como sendo da família. Era hábito esse menino, durante a missa, agradecer a hospitalidade e corroborar as palavras do padre. Para isso, meses antes, ele era escolhido e instruído na Matriz.

Tudo estava nos conformes e parecia que iria se repetir o mesmo ritual dos anos anteriores, comia-se muito, bebia-se mais ainda, mas havia no ar uma certa tensão. Meu pai e meus tios, diferente dos outros anos, que às vezes chegavam a cair bêbados, quase não comiam e não bebiam, conversavam pelos cantos entre si, conversavam muito com o padre e até com o menino que passava as festas conosco. Eu era pequeno para entender tudo e ligar aos fatos que iriam se suceder, mas sentia algo diferente.

E foi: todos de barriga cheia, a missa começou como de costume. O padre lá pelas tantas falava das virtudes de seo Chico, que chegara pobre à cidade, fizera fortuna e hoje repartia o que tinha com os pobres e a Igreja. Lá pelas tantas pediu para o menino falar e aí começou o problema. O menino, que até hoje não sei o nome, falava com certa desenvoltura, incomum à sua idade:

-  Comi hoje mais do que como a semana toda, quando como. E, por isso, deveria ser grato às pessoa que me trouxeram aqui. Mas, nesta noite de Natal, queria contar uma história que poucos sabem, de gente que poucos sabem. Dessas pessoas só sobraram as suas canequinhas.

Neste momento, eu que quase dormia acordei. Lembrei-me da coleção de canecas de meu avô. Eram canecas velhas, de alumínio, todas iguais.  E ele continuou:

-  Não sei se vocês sabem porque a cidade era conhecida como Canequinha – fez aí uma pausa antes de prosseguir – era um leprário, onde todos os doentes, para não se contaminar mais e contaminar os outros tinham suas próprias canecas.

Neste momento meu avô quis falar, mas, pela primeira vez na vida, os filhos não deixaram. E o menino, que tinha consigo uma caneca de ouro, continuou com a história:

-  Havia naquela época uma profissão muito rendosa: sumir com esses doentes. Eles eram levados de caminhão, a maior parte morta a tiros e depois queimados para não mais contaminar ninguém. O pagamento era feito mediante a apresentação de suas canecas...

O menino continuou falando, mas, de onde eu estava, com todo aquele burburinho, não mais se ouvia. Acabou a festa. O que se deu depois, não pude ver, pois eu e meus primos fomos postos para dormir.

No dia seguinte, sem saber o resto da história, queríamos ver os presentes, porém soubemos que meu avô tinha se trancado em seu quarto e ali fora encontrado morto, envenenado com algo que bebera na caneca de ouro.

Fomos embora logo após o enterro. Ficaram os filhos de seo Chico, para ver o testamento...

Hoje, nos natais em família, meus netos me pedem para contar a lenda do padre que fugiu com o dinheiro, e era muito, que era para ser repartido entre os filhos, a Igreja e o padre. As crianças ouvem atentas à mesma história todos os anos, pesando que poderíamos ser ricos. No dia 25, como de costume, abrem seus presentes e brincam. Não há mais a Missa do Galo. Eu, que não gosto do Natal, vou cedo para meu quarto e, só neste dia, abro uma gaveta para ver a caneca de ouro que guardei e, sem saber bem por que, choro, talvez, como meu avô chorava, apenas um pouco mais baixo para ninguém ouvir.