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O Bom Pecador

Os mais velhos certamente irão se lembrar que houve na cidade um ladrão famoso por roubar e nunca ser preso. Ele não portava armas, tinha extrema habilidade para abrir portas, pular muros e andar sobre telhados, e sem quebrar telhas! Discreto e elegante, roubava sem deixar rastros. Vez por outra alguém dizia tê-lo visto, mas nunca foi pego.

Naquela época virou um desafio para a polícia, pois esta era motivo de chacota, tornara-se um herói e mesmo as vítimas pareciam ter por ele certa simpatia. Se você for mais novo, pergunte ao seu avô, ele terá detalhes da história que não tenho.

Por usar o modus operandis de outro ladrão famoso em São Paulo na década de 20, o Gino Meneghetti, recebeu, originalmente, o apelido de Meneghetti, falado sempre com um belo sotaque italiano, depois, mais íntimo, só Menega.

Um belo dia Menega sumiu! Uns diziam que tinha morrido em um assalto, outros que ele, rico, tinha se aposentado. Havia ainda quem dissesse que fizera um acordo com o delegado da época para não ser preso e parou de roubar. Enfim, sumiu.

Tudo mentira! Menega (ainda vou usar este nome, para não identificá-lo, por se tratar de uma pessoa muito conhecida) morreu há dois anos. Soube que não roubava pelo dinheiro, mas sim pelo prazer. Já era rico quando começou a roubar e costumava, de uma forma ou de outra, doar todo produto dos roubos aos mais pobres - tinha um espírito robinhoodiano!

Só parou por um motivo: fora descoberto pela esposa. Mulher séria, Evangélica, de princípios religiosos, não admitia aquela conduta. Ameaçou entregá-lo caso não cessasse imediatamente com as atividades paralelas à sua profissão.  Ele concordou, pois era um comerciante respeitado na cidade, tinha filhos e amava muito a mulher.

A outra exigência, no entanto, não teve acordo: ela queria que ele se convertesse à religião. Resistiu até onde pode, mas quando ela caiu doente, há alguns anos, cedeu.

Foi a um culto da igreja que ela freqüentava. Assistiu às cantorias e os berros do pastor por quase duas horas. Ficou firme ao lado da esposa como prometera. Começaram os testemunhos de pessoas que tinham se convertido àquela religião: o primeiro foi um ex-viciado que fez, pelas drogas, as maiores atrocidades; em seguida uma mulher que abandonara o marido e os filhos por outro, que depois a abandonou; o próximo um senhor que cometera vários latrocínios e convertera-se na prisão; um rapaz que virara garoto de programa, transava com homens, mulheres e casais. Quando o último começou a falar, um pai, alcoólatra, que havia estuprado a filha, ele saiu do templo, pisando firme, de modo que todos ouvissem. A mulher correu atrás dele, perguntando o que tinha acontecido. Ao que ele respondeu:

-     Eu não fico nesse lugar. Nunca fiz mal a ninguém, nem no peso dos produtos da loja eu levava vantagem. Tudo que pegava era de ricos e dava para os pobres. Eu sou um homem de bem. Aí só tem assassino, drogado, puta, veado e estuprador! Eu não vou me misturar com essa gente!