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Nunca me afligiu a idéia
da morte. Nem a minha, nem de outrem. Todas as mortes
em minha vida não eram suficientemente próximas, ou já
vinham a seu tempo. Doeram-me mais as perdas vivas,
minhas e de outrem: amigos às drogas, o poder aos
militares, os rumos do mundo e o meu próprio!
Esta, porém, não era uma
noite típica. Havia ido a uma reunião que, terminada,
seria servido um jantar. Tinha sido um dia cansativo e
depois que parei de correr e nadar todos os dias, há
quase um ano, por aqueles motivos os quais nunca sabemos
exatamente porquê, minha paciência e resistência tinham
caído muito.
Após a reunião foram
servidos aperitivos e todos, creio que cansados e
ansiosos como eu, bebiam rápido e comiam afoitos.
Agitados, falavam rápido, como se tivessem que falar
tudo naquela hora.
Depois do jantar o assunto
era a morte. Não sei se por todos já terem atingido a
meia idade e ela estar cada vez mais próxima, este era o
assunto. Não queria falar sobre morte, mas já alto pela
bebida e empanturrado pela comida, assenti. A conversa,
nada agradável, foi longa e tediosa.
Era uma quarta. Cheguei em
casa passada a meia-noite e fui logo me deitar. Não
conseguia dormir. A comida pesada, a bebida e,
principalmente, aquela conversa tensa não saía da
cabeça. Revirava-me na cama e acompanhava as horas –
passava das duas!
Acho que finalmente dormi,
mas logo acordei suado e passando mal. Vinha-me a
conversa sobre morte. Junto vinham-me lembranças da
infância, jogos de futebol, a turma tocando violão, a
primeira aula no primário com a D. Maria de Lourdes -
será que ela ainda vive? – discussões com meu pai, a
primeira transa. Queria me lembrar de coisas recentes,
mas não vinham. Passava frio e calor, meu nariz tapado,
tinha dificuldade em respirar, doía-me o peito e a
comida andava pelo estômago. Queria dormir, mas não
conseguia. Queria chamar alguém e acordar, mas não sabia
se dormia ou não.
Creio que finalmente dormi.
Acordei descansado, como nunca havia acordado. Acho que
ainda não havia raiado o dia, pois estava escuro, ou
assim me parecia. Um silêncio raro. A comida não pesava
mais e eu não tinha mais pressa. Tudo parecia normal,
exceto a paz que experimentava. Quis abrir os olhos para
ver as horas, mas não consegui. Estava naquele estado
entre o acordar e ainda dormir, quando se crê que tudo é
possível, quando vêm à mente as grandes idéias, que
muitas vezes não duram depois de acordarmos.
Não havia deuses, não havia
luzes, apenas uma paz muito grande. Nenhuma grande
questão fora resolvida: ainda não sei de onde vim, nem
para onde vou e, realmente, pouco importaria ter me
dedicado mais a isso.
Nada mais importava, nem o
fato de aparentemente não mais acordar desta noite sem
fim. |
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