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No Amor e Na Dança
 

Ela, vinte e poucos anos, bonita, recém-separada de um namoro de cinco anos, professora de dança; ele, aposentado, por volta dos sessenta, os poucos cabelos que lhe restaram, grisalhos, viúvo há pouco, disposto a aprender dançar. Conheceram-se assim. O instrutor a designou para fazer par com o novo aluno.

-  Por quê o senhor quer aprender a dançar?

-  Sou viúvo há pouco tempo. Minha esposa sempre gostou de dançar, mas eu não. Para satisfazer seu desejo havíamos nos matriculado neste curso de dança de salão. Ela, infelizmente, morreu, mas eu, em homenagem a ela, resolvi levar a cabo este projeto. Sei que ela gostaria...

-  O que o senhor faz?

-  Eu era supervisor de novas agências do Banco do Brasil. Hoje estou aposentado.

-  E para se distrair? Quais são seu hobbies?

-  Gosto muito de jogar tênis.

-  Tênis! Gostaria de aprender...

-  Posso lhe ensinar, se quiser.

-  O senhor leva jeito para dançar.

-  Obrigado.

-  E você? O que faz fora as aulas?

-  Eu terminei administração e trabalho administrando uma empresa de meu pai.

-  Que interessante!

E assim foi a sua primeira aula.

No dia seguinte ele descobre o telefone da empresa e liga para ela:

-  Oi Dany! Tudo bem? É o Marco, seu novo aluno.

-  Olá. Como está você?

-  Bem. Eu queria lhe fazer uma proposta.

-  Faça.

-  Eu queria aprender a dançar logo. Você poderia me dar aulas particulares?

-  Não sei. Eu não tenho muito tempo... Não tem lugar...

-  Eu não aceito não. Tem uma sala grande em minha casa. Peça para se ausentar uns dias do curso. Quero aulas com você todas as noites.

Ela tentou argumentar. Não se sentia segura, mas não conseguiu.

Já na primeira aula na casa dele, as coisas mudaram de figura. Ele, que havia sido um aluno quieto e obediente, resolvera mudar de atitude em relação à professora:

-  Dany, sempre ouvi dizer que quem conduz na dança é o homem. Por quê você insiste em me conduzir?

-  É que estou lhe ensinando...

-  Mesmo assim. Quem conduz na dança é o homem. Solte-se e deixe-me conduzi-la. Outra coisa: você dança bem, mas parece que não sente a música. Deixe-se levar pelo ritmo.

-  Vou tentar!

-  Ah. Quem lhe ensinou a andar de bicicleta?

-  Sei lá... Meu pai...

-  Tem certeza?

-  Não. Aprendi sozinha. Meu pai apenas ficou por perto para me dizer para não desistir e ver quando me machucava. – responde ela com a alegria de quem descobrira uma das chaves da vida.

-  É isso aí. Ninguém ensina ninguém a andar de bicicleta, a nadar ou dançar.

Nas aulas que se seguiram, dançavam soltos, conversavam e ela percebeu que seus temores em relação a Marco não procediam. Ficaram, além de aluno e professora, bons amigos. Conversavam sobre dança, tênis, os amores, as dificuldades dela como mulher na empresa.

-  Falta um caráter feminino na empresa. A delicadeza e a suave condução feminina no mundo dos negócios. Cuidado para não se masculinizar na condução dos negócios – afirmava ele, com sua experiência.

Visto de fora, não formavam um belo casal. Ele dançava cada dia melhor. Ela dançava e trabalhava, segundo seus conselhos, cada dia melhor. Finalmente, foram juntos a um baile, rodavam o salão, não mais aluno e professora, apenas bons amigos.

No domingo seguinte, à noitinha, ela bate em sua casa para conversar. Está triste, meio sem saber por que estava lá. Ele, também se sentindo só, sugere que tomem um vinho e que dancem um pouco. Ela concorda. Em meio à dança, ele a beija suavemente. Ela, ainda meio insegura, permite. Ele continua a beijá-la e a dançar. Param a dança, sentam-se no sofá e continuam a se beijar, quando ele, percebendo sua afobação, lhe diz:

-  Lembre-se que quem conduz na dança é o homem. No amor e na dança, quem conduz é o homem. A condução feminina é suave, quase imperceptível. Quem conduz tudo, na verdade é a mulher, mas de uma maneira tão delicada que se faz parecer que é o homem quem dá está condução.

Ela, entendendo o recado, soltou-se e dançaram e amaram-se.

Ela, ao sair, sem culpas, diz:

-  Nunca me senti tão bem com alguém! Nos vemos de novo?

-  Apenas como amigos. Eu tenho quase o triplo de sua idade. Não formamos um belo casal. Mas ambos aprendemos o que tinha para aprender um com o outro. Sua vida é ao lado de rapazes de sua geração. Mas nunca se esqueça sobre como se dá a condução feminina nos negócios, no amor e na dança.