O Edu
sempre foi um cara gente boa. Estudamos juntos, desde
quando nos conhecemos na 6ª série. Ele só era meio
tímido, introvertido.
Tomamos
outro caminho depois do cursinho. Ele foi fazer
agronomia em Espírito Santo do Pinhal.
Mesmo
assim nos víamos quase todos os finais de semana, pois
voltávamos para casa, para comer a comidinha da mamãe,
trazer a roupa pra lavar e curtir umas mordomias que não
tínhamos na república.
O bom
mesmo era o futebol e os barzinhos, onde tocávamos e
cantávamos até tarde.
Ele
continuava meio tímido, principalmente com as mulheres.
E olha que tinha mulheres interessadas! Era até bonito,
jogava bem futebol, tocava e cantava. Mas não tava nem
aí. Saía com uma um dia, outra; mas não durava. Acho que
ele era meio exigente. Esperava encontrar o grande amor
da vida.
Certo
dia, a Márcia, uma menina que estava afim do Edu, veio
me perguntou se ele estava namorando. Disse que ele
havia contado de uma tal de Renata, lá de Pinhal.
No final
da noite, ele confirmou pra mim e resto dos amigos que
estava namorando a Renata, filha do prefeito da cidade,
um fazendeiro! Bonita, inteligente, cantava bem etc. E
eu fui construindo a Rê, que era como já a chamávamos,
em minha cabeça. Loira, olhos verdes, risonha. Linda,
segundo sua descrição.
Nós,
quando estávamos namorando, faltávamos alguns finais de
semana, mas ele não; vinha sempre. Às vezes, quando o
namoro ficava mais firme, um de nós trazia a namorada,
até porque elas queriam saber porque tanto voltávamos
pra casa. Mas ele não, nunca trazia a Rê.
Todos já
gostávamos dela, de tanto que ele falava; cada semana
uma novidade sobre ela, sempre com muitos detalhes. Ele
realmente estava apaixonado.
Mesmo
assim, vez por outra, ficava com alguma menina, mas
gostava mesmo da Rê - e nós também.
Certa
vez, eu tinha que ir pela faculdade à Pinhal. Liguei
para o Edu e avisei que ia ficar na república dele.
Achei estranho, porque ele tentou arrumar uma desculpa
para eu não ficar lá, mas, por fim, concordou.
Viajei
pensando nela. Será que é tudo aquilo que ele falou?
Sempre achei que ele exagerava um pouco.
Quando
cheguei lá, primeira coisa que lhe perguntei foi:
-
E a Rê? Quando vou conhecê-la?
-
Olha, não conta pra ninguém, mas a Rê não
existe.
-
Como assim?!
-
É. Eu inventei a Rê. Ela não existe, nem
nunca existiu.
-
Mas a troco de que você fez isso?
-
Sabe...sempre que a gente ia pra lá tinha
alguma menina querendo alguma coisa. Na maioria das
vezes eu não tava afim. Outras até tava, mas só uma vez
ou outra. Teve uma até que espalhou que eu era viado,
Lembra?
-
Lembro. Até fizemos uma música sobre
vocês! – disse rindo.
-
Então. Depois que comecei a namorar a Rê,
não tive mais problemas. Fico com quem quero, se quero e
pronto.
-
Mas todo mundo já gosta dela. Todos
morrem de vontade de conhecê-la.
-
Já pensei nisto também. Um dia destes,
ela vai fazer um curso no exterior, conhece um gringo,
se apaixona e fica por lá.
-
Bem, ao menos acho melhor ser corno que
viado.
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