Como sou
o quinto de uma família de seis irmãos, sempre pude
conviver com pessoas mais velhas e interessantes.
Ofélia
era a melhor amiga de minha irmã, Magda, e, por um bom
tempo, namorada do Marco, meu irmão mais velho. Muito
bonita, para dizer o mínimo, que é apenas o que me é
permitido falar para o respeitável público deste, não
menos respeitável, periódico; mas, devido ao nome, tinha
a fama, injusta, de burra, que a acompanhou na faculdade
de medicina! Ganhou vários apelidos: QI de samambaia de
plástico, ameba mongolóide, para citar alguns. Aprendera
a brincar com sua “burrice”, mas no fundo não gostava.
Era
muito bonita mesmo. Não se casou com meu irmão (ainda
bem!), mas continuava a freqüentar a minha casa (ainda
bem!) e, nas horas vagas eu sempre pensava nela, que
também é o máximo que posso dizer aqui.
Quando
nasceu sua primeira filha, em homenagem à minha irmã,
chamou-a Magda – para nós, apenas Dinha – e convidou
Magda e Marco para padrinhos.
Procurou
assegurar-se que a filha não tivesse a mesma sina, mas,
como já deve antecipar o leitor, ela não poderia
adivinhar que haveria um programa chamado “Sai Debaixo”!
Isto, no entanto, nunca se aplicaria à Dinha. Ela não
era só culta e instruída, era perspicaz e inteligente,
além de muito, mas muito bonita mesmo!
Daquelas...Bem...Vamos manter o nível da coluna.
Eu, que
já era muito amigo da Ofélia, tornei-me mais amigo da
Dinha. Era uma delícia - sua companhia, que fique bem
claro! - e, como tocava qualquer instrumento (baixo,
bateria, teclado, guitarra!), tínhamos até uma banda de
fim de semana com a Leila, ótima cantora, e o Marco.
Inteligente, graduou-se em Física; bonita, daquela
geração saúde, entendia de tudo, além de extremamente
bem humorada - a melhor companhia que se pode querer.
Mas tinha um problema: era muito inteligente!
- Era
melhor ter nascido burra. Ou feia. Beleza e inteligência
não combinam - Dizia rindo.
-
Assim, nunca vou me casar! - Concluía.
Não que
lhe faltassem pretendentes: sua beleza os atraía, mas a
inteligência e o humor... Combinação realmente
explosiva!
Tocávamos em um bar, quando, no intervalo, um rapaz
bonito, forte, veio à mesa e puxou papo com ela. Acho
que se conheciam da academia.
Tentando
impressioná-la, escorregava a toda hora. Ela firme,
séria, fazendo cara de interessada.
A certa
altura, sei lá porquê, a Leila perguntou:
- Alguém
se lembra dos sete pecados capitais?
- Gula...Inveja...Luxúria...
– ele tentando lembrar-se de todos e causar boa
impressão.
- Você
comete o pecado da luxúria? – Dinha perguntou ao rapaz,
maldosamente.
- Ah!
Quase toda hora! – disse, sem saber onde estava pisando.
(Abro
aqui parênteses, pois certo que a maioria dos leitores é
ou foi católica, ciente dos pecados capitais para não
praticá-los, sabe a que se refere este ignóbil pecado, o
que me permite pular a explicação).
O Marco,
que tinha acabado de dar um gole no chope, deu um banho
em quase todo mundo e disse:
- Cara!
Que inveja! Luxúria... é...Ah! Deixa pra lá.
A
conversa continuou e o rapaz que, tentando recuperar os
pontos perdidos, fazia e acontecia:
- Eu
digo tudo que penso! – categórico.
- Querido...Você
diz tudo que lhe vem à cabeça. Você...não existe, como
diria René Descartes – finalizou Dinha, murmurando “Cogito
ergo sum”.
- Obrigado!
– disse ele, meio confuso e lisonjeado.
Salvos,
ele e nós, pelo fim do intervalo, Dinha ainda insistiu
em cantar Dindi, que acabou virando apelido do dito
cujo!
- Cala
a boca, Magda! Você é um perigo. – disse eu, ao
entregá-la à Ofélia, que ainda estava acordada – Assim
não casa mesmo!
Daí em
diante, sempre que o encontrava, ela dizia, em tom
meigo: “você não existe” e ele sorria entre confuso e
agradecido.
E a mim,
rindo triste:
- Cada
gabiru que me aparece! |