|
Era uma tarde de inverno de
um casal que já não vivia bem - anoitecia cedo. Para
ela, um belo momento: seus projetos decolavam, crescia
em sua carreira, a vida lhe sorria; já, para ele, só
dúvidas: profissão, modo de viver, tudo era doloroso.
Voltar para casa e deparar com uma pessoa feliz era
amargo. Assim, também era triste, para ela, encontrar-se
com alguém que não compartilhava de sua alegria.
Fora um relacionamento
baseado no ciúme e nas desavenças. O sexo, quando bom,
era precedido de conflitos, ora por inveja, ora por
posse, ou por qualquer coisa que valesse uma boa briga,
para, depois, haver a reconciliação. Difícil definir se
viviam bem ou não. Parecia, em alguns momentos, feitos
um para o outro, mas, na intimidade, no dia-a-dia, as
picuinhas venciam.
Naquela noite, em
particular, ela queria sair, ver gente, repartir sua
alegria com o mundo todo, jantar fora; ele, em um dia
muito cansativo, queria ficar só, curtir sua tristeza,
desejava apenas alguém para repartir suas mazelas.
Assim encontram-se,
afobados, cada um querendo contar ao outro o que tinha
para contar. Ele respirou, cansado, com quem fosse dizer
algo, mas calou-se; ela tomou ar, mas ele, com os olhos,
a silenciou. E assim permaneceram, por um tempo, sem ter
o que dizer. Ela, buscando começar um assunto,
perguntou:
-
Quer algo? Um
uísque?
Ele, sentado no sofá, ainda
sem dizer uma palavra, fez um gesto para que ela se
aproximasse. E assim se deu. Permaneceram, por muito
tempo, quietos, sem que uma palavra fosse dita, e nada
realmente havia por dizer, e levemente se beijaram, um
único beijo, longo, demorado, sem peso, que parecia
exprimir todos os beijos não dados até então, que
superava os beijos fortes depois das brigas, que
conduziam ao amor e à trégua; um beijo que pacificava
tudo. Experimentaram uma sensação nunca antes percebida,
nem nesse, nem em outro relacionamento qualquer.
Sentiram-se em paz.
-
Isso foi tudo
que busquei em toda minha vida. Achar a paz, o
equilíbrio. Aprender a entrar em sintonia. Pouco importa
se estou alegre ou triste, pouco importa tudo que
aconteceu em nossas vidas, antes ou depois. De nada
importam as pessoas lá fora. Chegamos em freqüências
diferentes e agora somos um só, em perfeita comunhão.
-
Isso é amor,
isso é paixão! Por que demorou tanto para descobrirmos
isso? Essa sintonia é mágica. Há tempo para recuperarmos
tudo que perdemos vida afora?
-
Sim! Mas não
para nós. É tarde. Já nos agredimos muito. Guardemos
isso para os novos momentos de nossas vidas. Acho que
essas palavras agora me fazem sentido: sintonia,
comunhão.
-
Você tem
razão. A Trindade só existe a partir desta sintonia e,
como você mesmo disse, da comunhão. A terceira pessoa
que deveríamos formar era menos que a soma de nós dois.
Despediram-se. Anoiteceu!
Mas são belas as frias manhãs ensolaradas de inverno.
|