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A
empregada, que estava descontente pelo tratamento que
recebia da patroa, uma dondoca que repartia o tempo
entre as compras, com o dinheiro que já não tinha, o
cabeleireiro e, diziam as más línguas, um amante; e pelo
seu salário, que, embora mínimo, atrasado, com muito
serviço acumulado; esqueceu-se que já havia salgado o
feijão e pôs mais sal!
Não
poderia prever, a pobre coitada, de mínima instrução, só
não menor que seu salário, e máxima paciência, apenas
superada pela quantidade de ameaças que recebia da
patroa, que não a demitia pelo simples fato desta não
ter dinheiro para pagar-lhe as contas devidas, além do
atrasado, é claro; o desencadear de fatos que iriam se
suceder pelo seu pequeno erro. Escapou, desta feita da
bronca, por já ter ido embora, quando o Dr. Jorge
chegara para comer o feijão.
Dr.
Jorge, dono de uma grande empresa, que ia muito mal,
cheia de dívidas e credores, com, já poucos,
funcionários descontentes, também com o soldo em atraso
e excesso de trabalho; sabedor da incompetência
administrativa do lar de sua esposa e sua competência
consumidora, já desconfiado de sua fidelidade;
descarregou tudo no maldito feijão! Resultado: a briga
fez com que a mulher não falasse mais nesta noite com
ele, e nada mais, é claro, o que aumentava sua
desconfiança, pelo jejum estabelecido pela esposa; e não
conseguisse pregar o olho durante a noite toda.
Ao
chegar na empresa, já de mau humor, pela noite mal
dormida e a tensão acumulada, por assim dizer, recebe a
notícia que, por uma falha em um documento, perdera uma
concorrência que daria um pequeno fôlego à empresa.
Chama o diretor responsável pelo documento e o
esculhamba, em voz alta, de porta aberta, com palavras
que causariam vergonha em qualquer estivador de porto.
Este, ao sair, cabisbaixo, sob o olhar da secretária e
dos que esperavam para falar com o Dr. Jorge, a maioria
credores, além de um oficial de justiça; por sua vez,
chamou o gerente e dispensou, se é que fosse possível,
um tratamento pior do que recebera.
O
gerente, irritado, humilhado, chamou o chefe da seção
responsável e aos gritos e ameaças, mandou-lhe sair logo
de sua sala, claro, que antes lhe mandando para dois
lugares que, apesar de imagináveis, não posso citar
aqui.
Um
encarregado, que provavelmente teria pouco a ver com o
fato, recebeu todos o xingos acumulados do Dr. Jorge ao
chefe e, por sua vez, ao ver o um faxineiro sentado,
mandou-o embora, não economizado ofensas.
O
pobre coitado, que não tinha em quem descarregar, nem no
cobrador do ônibus, pois este dinheiro não tinha, ao
chegar em casa, antes até de que a mulher lhe
perguntasse porque chegara mais cedo, meteu-lhe a mão,
com tanta força, que esta nem se atreveu, com medo, a
perguntar porque apanhara.
Ao chegar à casa que trabalhava, no dia seguinte, triste
e desnorteada pela surra e já levando bronca da patroa,
pelo dia anterior, e sendo avisada para não errar hoje
na comida do patrão que, para fazer as pazes com a
esposa, deixara um dinheiro extra para, desta vez,
comprar carne, algo em falta na casa em crise, nem
imaginava que iria novamente errar e queimar a carne do
Dr. Jorge.
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