A primeira notícia que se
tem de João data ainda de quando estava na barriga de
Dona Maria: uma cigana, ao receber dela uma esmola, disse: “Carregas aí um
tesouro. Ele traz consigo uma importante missão!”. Essas
palavras marcaram mãe e cria para sempre. João nasceu em
25 de dezembro de 1954, o que, de certa forma, reforçava
a crença de sua mãe em seu destino.
Durante sua infância há
muito pouco para se destacar, apenas que fez judô e
natação e dessa fase guardou algumas medalhas e que a
única briga que teve foi para defender um amigo menor.
Ele conhecia a história da
cigana e sabia que tinha uma missão a cumprir, por isso,
desde pequeno, se preparava física e intelectualmente.
No começo dos anos setenta,
ingressou na recém criada Universidade Federal de São
Carlos. Lá teve contato
com a situação do país: as torturas, as mortes e
atrocidades que eram cometidas. Teve, nessa época, o
primeiro vislumbre do que poderia ser seu destino.
Com as passeatas e a repressão, veio a
primeira prisão e a própria tortura. Ingressou
no MR-8 e na luta armada. Novamente preso, conseguiu
fugir e exilou-se no Chile. Pensava saber claramente
qual seria sua missão: libertar o Brasil da ditadura.
Foi à Cuba, recebeu treinamento para deflagrar a
libertação da América. Nessa época em nada lhe serviu o
treinamento, pois de lá seguiu para França, onde
cursou engenharia, só voltando ao Brasil com a
anistia.
Nos anos que se seguiram
filiou-se ao PT, pensando sim agora ter descoberto sua
grande missão: salvar o país e o povo através da via
pacífica. Em pouco tempo descobriu que não seria
isso que o destino lhe reservara. Tentou ainda, antes de desistir da
política, o PC do B, mas desiludiu-se também. Apesar de
pacifista, depois da eleição de Collor, concluiu que o
povo não tinha conserto e que a única solução ainda era
a luta armada. Tinha preparo, mas não acreditava ser
possível deflagrá-la, embora, ainda quando estava na
faculdade, na época do milagre econômico – Ponte Rio-Niteroi, Transamazônica etc., tenha feito parte de
um plano para assassinar o Delfim Neto.
Novamente, agora por livre
opção, João retirou-se do Brasil. Foi para o Tibet
meditar e
estudar zen-budismo.
Espiritualizado,
enquanto não vinha o sinal,
voltou a São Carlos, terra que o marcara, agora para ser professor da USP.
Ali, pacientemente, meditava à espera de seu destino.
No dia de seu
qüinquagésimo aniversário veio o sinal através de uma
carta anônima:
“João vá ao Rio de Janeiro”.
Sentiu que
chegara a hora. Sabia que aquele era o momento que tanto
esperava. Antes de viajar, o que faria de ônibus,
conferiu o revólver que havia comprado para a missão há
poucos meses. Comprara e guardara, sem um disparo
sequer.
Chegando no Rio, hospedou-se
em um hotel no Leblon. Dois dias depois foi encontrado
morto na praia de Copacabana, com um único tiro na
cabeça. Estava com todos os seus pertences: carteira,
documentos, dinheiro, relógio, enfim tudo - nada lhe
fora subtraído. O seu revólver encontrava-se em seu
quarto no hotel, com apenas uma bala disparada.
Embora tudo fosse tão óbvio,
ninguém nunca soube qual era sua missão e nem se ele
finalmente a cumpriu! Nem eu, nem vocês!