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Águas de Junho

 


Conheciam-se há algum tempo, mas apenas pela Internet. Por conta de assessorarem, cada um em sua especialidade, um grupo de pesquisa, trocaram alguns e-mails e mantiveram-se cadastrados. Vez por outra, um ao ver o outro on-line dava um oi, perguntava se estava tudo bem e seguiam nos seus afazeres. Umas poucas vezes, detinham-se em um papo um pouco mais demorado, mas nada que merecesse nota.

Em uma dessas conversas corriqueiras, perceberam um gosto comum: o cinema. De coincidência em coincidência, descobriram que passava naquela noite em um cinema alternativo, em 35”, Singing in the Rain – oportunidade única! Combinaram, pois, a ida ao cinema.

Arrumaram-se para este primeiro encontro. Nem mais, nem menos; sem excessos, apenas com os cuidados necessários. Ela, no entanto, lamentava a chuva fina que caía naquela noite fria de junho, “mas, convenhamos, singin´n the rain merece enfrentar uma chuvinha”, pensou sorrindo.

A chuva havia dado uma trégua. Às oito em ponto, conforme combinado, ele a esperava no saguão de seu prédio. Perto do cinema volta a chuva, os casais correm, alguns deixam as esposas, namoradas e amigas à porta, enquanto seguem ao estacionamento. Ele estaciona, abre seu guarda-chuva e a porta, oferece-lhe o braço e seguem, andando calmos, vendo os que correm d’água que cai.

À saída, não chovia mais. As nuvens se foram e a noite fria de junho mostra o primeiro dia da lua minguante. Ambos tinham que levantar cedo, mas um café parecia uma boa desculpa para fechar a noite. E assim fizeram.

Ao chegar em sua casa, ela corre para o quarto de sua mãe, que dorme:

-  Mãe...

-  Oi filha. Você demorou. Estava preocupada. Você saindo com alguém que não conhece bem... Como foi o cinema?

-  Mãe, ele tem um guarda-chuva!

-  Ahm? – Faz a mãe, sem entender bem.

-  UM GUARDA-CHUVA! – Ela diz escandindo - Ele tem um guarda-chuva: enquanto os outros casais corriam, nós andávamos de braços dados protegidos pelo seu guarda-chuva!

Após uma pausa, para que sua mãe entendesse o significado, desembestou a falar novamente:

-  Depois fomos tomar um café, mas ele, quando eu ia pedir o café ao garçom, me interrompeu e pediu dois pratos de sopa e um vinho. O frio, sopa, vinho... Conversamos sem parar até tarde e aí ele me trouxe para casa. Pena que não choveu mais, para andarmos de braços dados sob o seu guarda-chuva.

-  E aí? – Pergunta a mãe, certa do que virá.

-  E aí mais nada. Ele me deixou em casa.

-  Você o beijou?

-  Ainda não, mãe... Ainda não.