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A Grande Mudança

 


Perco o amigo, mas não perco a piada – dizia Paulo rindo. E já havia perdido muitos.

Aprontava com todo mundo. Segundo ele mesmo, era assim desde pequeno. Contava a história de um rapaz no primário em Bauru, maior que ele, repetente, que queria pegá-lo na saída, de tanto que ele rira da redação que dizia “esperei fazer a congestão para ir nadar”. Quase apanhei, contava.

Culto, andava com livros grossos, em geral em inglês, jogava tênis e ia a sessão maldita. Mas tudo por mera vaidade. Dava mais importância ao que pensavam dele. Após os filmes ia a um café no centro e com algumas palavras-chave, dava opiniões: Paradoxo, sentimento de culpa, dialética, conflito interno etc. O que muitas vezes lhe garantia a noite com alguma garota mais impressionável.

Em um torneio entre universidades, jogou tênis. Na última partida, se ganhasse, ganharíamos o título. A universidade em peso foi torcer para ele, que era bem melhor que o adversário. Arrasou no primeiro set, com jogadas bonitas, belas largadas. A cada jogada de efeito, olhava para a torcida. Perdeu o segundo e o terceiro sets; e nós, o título – a vaidade e o medo o derrotaram.

Filho caçula, de uma família de professores, com 2 irmãs mais velhas, era mimado pelos pais. Mas dizem que quem o estragou mesmo foi a tia que, sem filhos e rica, dava de tudo a ele. Skate, aula particular, patins, aula de tênis, bicicleta, guitarra, mobilete! Ele tinha uma mobilete aos 15 anos! Ganhou dela um carro quando entrou na faculdade.

Quando ficou por sua conta, lá pelos 30 anos, não se acertava. Era ambicioso, só queria grandes projetos. Já não era tão alegre e brincalhão. Bebia muito. Diminuíam-lhe os amigos e os cabelos, enquanto aumentavam as dívidas e a barriga.

Um dia veio a grande surpresa: sua tia de Bauru morreu e deixou quase tudo para ele. Prédios em Bauru, Campinas e São Paulo, algo avaliado em US$ 4.000.000,00. Quatro milhões de dólares! Só de aluguel daria mais de 500 pau por mês.

-   Sorte é sorte! – dizia ele a todos.

Foi a Bauru e acertou tudo com uma imobiliária que, em troca da exclusividade, venderia tudo por apenas 1% de comissão. Até nisto tinha sorte!

Após três meses de expectativa e ansiedade, ligou o dono da imobiliária e disse que tinha conseguido uma oferta de US$ 2.000.000,00 à vista, mais todos os impostos e transferências pagos pelo comprador. Topou.

-   Dinheiro limpo! Quase tudo no exterior, em dólares! – dizia aos novos e velhos amigos.

Marcaram um almoço para assinar os papéis em um restaurante fino em São Paulo.

Almoçou apenas com o dono da imobiliária de Bauru, pois o comprador iria se atrasar e, após o almoço, iriam ao escritório dele, na Faria Lima, para assinar tudo e por a mão na grana.

Paulo fez questão de pagar o almoço, mas o dono da imobiliária não deixou.

-   Vamos assinar tudo? – propôs Paulo, ansioso.

-   Não tenha pressa. Vamos esperar fazer a “congestão”.

Paulo levantou a cabeça e olhou bem para aquele senhor, mais velho, careca e disse:

-   Sílvio! Eu não acredito. Não o havia reconhecido! O que fez da vida?

-   Bem, fui suspenso da escola por tentar bater em você e, no final das contas, repeti de ano, de novo. Meu pai me tirou da escola e passei ajudar em casa fazendo biscates. Trabalhei de boy na imobiliária e depois corretor. Passei a perna no dono e fiquei com a imobiliária dele. Mas isto também nunca deu nada. Minha vida sempre foi uma merda.

-   Mas agora melhorou – disse Paulo. Fizemos um grande negócio e para compensá-lo por aquilo, ao invés de 1%, vou lhe dar 5% da venda. Dá cem mil dólares!

-   Não precisa. Lembra-se da pressa que você estava de vender tudo? Daquele monte de papéis e procurações que você assinou? Vendi tudo e recebi. Já está tudo resolvido.

Sílvio levantou-se enquanto o garçom servia o Cointreu e, antes de sair, finalizou:

-   Boa DI-GES-TÃO!