Aquela sensação
gostosa ao acordar era rara. Há tempos que isso
não acontecia. Não se lembrava bem de como
dormira. Vinham à cabeça vagas lembranças
ou...vagas sensações de felicidade ou...de prazer!
Acordara com fome. É gostoso acordar com fome: dá
vontade de levantar logo da cama e comer o mundo!
Pela janela aberta, o sol, já adiantado, no
terceiro dia do verão, estava quase a pino.
Meio-dia! Fazia muito também que não dormia tanto.
As roupas fazem pela casa um rastro que termina,
para ela que segue do quarto para fora, no hall
de entrada. Dormira nua! Os sapatos salto onze e
as meias, pretas, estão sobre a cama, um sob seu
travesseiro, a outra presa em sua perna, a
calcinha, preta, no meio do quarto. Assim a trilha
de roupas pretas que segue à entrada, provoca um
certo frio na barriga: “O que fiz ontem?”.
Vagamente lhe vem à
memória a festa de fim de ano da empresa. Fora um
ano excepcional. Apesar de ser uma ONG que faz
consultorias ambientais, comemorava-se, além do
bom desempenho financeiro, a real implantação por
parte de governo e empresas dos planos sugeridos.
A festa de final de ano se dera em uma quinta, já
que o Natal cairia em um sábado. Era em uma boate
famosa.
Ela, que nunca foi
muito de beber, estava alegre e contente – um
champanhe a deixava leve.
Todo mundo muito
chique, pelos menos ao chegar. Além do pessoal da
empresa, clientes do setor público e privado,
alguns famosos que emprestavam sua imagem às
causas ecológicas: Adrianne Ferraz, Alexandre
Borges, Vera Holtz, Simone, Ângela Figueiredo, com
quem conversou um pouco, ainda jovem e bonita,
para quem fez novelas na Tupi,
entre outros. Muita gente, muita música,
muita dança, bebida, abraços de congratulações,
mais bebida, mais música, mais bebida, mais
música...É tudo que se lembrava.
“Como saí de lá?”, é a
pergunta a se fazer. E pior, ou melhor, pois a
sensação que ficara era boa: “Com quem?”.
“Caio? Não. Ele é
casado e a esposa estava lá; Fernando? Não...É muito
baixinho; Paulo? É muito alto. Marcelo? Não. É
gay. Com quem? Aquele amigo do Milton – o
Antonio? Não...”
Fazia tempo que ela
não tinha essa sensação – acho que isso já foi
dito há pouco, mas vale frisar. Tão gostoso que
poderia ter sido um sonho, uma fantasia. Isso: uma
fantasia de Natal.
Mas era sexta e tinha
o último dia de trabalho e as contas e relatórios
a fechar. No meio da bagunça, que recolhe
apressadamente, há uma meia de homem, que
certamente não é sua. Meia meio extravagante, com
motivos do Asterix. O único que se lembrava gostar
de meias assim era o Antonio Fagundes...Mas ele,
infelizmente, não estava lá.
Banho rápido tomado,
chega à empresa. Todos, de cara amarrotada,
parecem olhá-la de modo diferente. Ela, também
estranha, não resiste olhar a cada homem para ver
se lhe falta um pé de meia. Olha, com certo
receio, até para o tio da faxina e o boy!
“De quem será essa meia? Quem é fã do Asterix?” é
a pergunta agora que não lhe sai da cabeça, afinal
fantasias não usam meias.
Só à noite, em casa,
veste-se adequadamente, abre um champanhe e brinda
à noite quente: “Feliz Natal! Que ano adorável”.
E, como fazia quando criança, pendura a meia na
janela aberta.
Acorda novamente
tarde, nua, com a mesma sensação do dia anterior.
A meia não está mais na janela, mas sim perto da
árvore enfeitada, ainda piscando, com um bilhete: