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21 de Abril

Era um final de tarde de sábado meio chuvoso. Homens e mulheres, velhos e novos, se aglomeravam em torno da praça para aquilo que, já naquela época, era um modo de se divertir e matar o tempo. O condenado, com cara de quem não comia há uns dois dias, fraco pelas torturas que eram comuns nos dias que antecediam as execuções, apontava para o tão esperado momento.

A multidão abria espaço para sua passagem. O homem pequeno e forte, atarracado, era trazidos aos trancos e barrancos por vários soldados que lhe batiam para que viesse pelo caminho certo até o centro da praça. Lembraria Jesus a caminho do calvário, exceto pela falta de cruz e tipo físico, embora, em ambos os casos, não houvesse quem retratasse com fidelidade os condenados, ou mesmo seus crimes.

Ao passar por mim, ele olha e grita, apontando o homem que está ao meu lado: “É ele! É ele!”; mas, com uma pancada na cabeça, foi silenciado por um dos guardas. O que obrigou que fosse arrastado inconsciente pelo resto do caminho até o local destinado.

Passei a olhar o homem que fora apontado. Guardavam uma boa semelhança física. Era também baixo, forte, cabelos curtos, barba feita, sisudo, com aspecto de militar raso. Tinha uma cara de meia-lua que chupara um limão bem azedo. Ele se afastou e foi mais para o alto da rua, de onde se tinha uma visão melhor do que acontecia. Eu o segui.

Lá embaixo já haviam amarrado o condenado pelas pernas e braços a quatro cavalos e tentavam reanimá-lo para que ele próprio se visse apartado dos braços e pernas.

Enquanto isso, passei a conversar com o homem:

-  O senhor sabe o que ele fez? – Perguntei.

-  Era o chefe de um levante contra a coroa lá pelas Minas Gerais. - Respondeu-me seco.

-   Chefe de um levante? Um homem tão simples? Um homem só? – Disse eu admirado.

Ele deu-me com os ombros, sem nada dizer. Esperou um pouco e falou, como que não fosse comigo, como que pensasse alto:

-  Coitado. Ninguém se lembrará dele. Daqui a pouco juntarão os pedaços do esquartejado. A chuva que cairá mais à noite limpará o sangue da praça. E ninguém que aqui esteve saberá por que ele foi morto ou quem era. Nunca será um herói! – Falando com um ar de culpa e alívio.

Nisso, lá embaixo os cavalos começavam a puxar o homem que apenas deu um grito e desmaiou antes de ser dividido em quatro ou cinco partes. O homem ao meu lado quase se pôs a chorar.

-  É seu aparentado? – Perguntei-lhe.

- Não. Ele sou eu mesmo! – Respondeu-me de um modo estranho, antes de levantar para seguir o seu caminho.

-  Como o senhor se chama? - Ainda perguntei.

-  Xavier. Joaquim Xavier. - Disse baixo, como se fosse um segredo ou tivesse vergonha do nome.

E o homem estranho se foi para que nunca mais se falasse dele.