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Era um final de tarde de
sábado meio chuvoso. Homens e mulheres, velhos e novos,
se aglomeravam em torno da praça para aquilo que, já
naquela época, era um modo de se divertir e matar o
tempo. O condenado, com cara de quem não comia há uns
dois dias, fraco pelas torturas que eram comuns nos dias
que antecediam as execuções, apontava para o tão
esperado momento.
A multidão abria espaço para
sua passagem. O homem pequeno e forte, atarracado, era
trazidos aos trancos e barrancos por vários soldados que
lhe batiam para que viesse pelo caminho certo até o
centro da praça. Lembraria Jesus a caminho do calvário,
exceto pela falta de cruz e tipo físico, embora, em
ambos os casos, não houvesse quem retratasse com
fidelidade os condenados, ou mesmo seus crimes.
Ao passar por mim, ele olha
e grita, apontando o homem que está ao meu lado: “É ele!
É ele!”; mas, com uma pancada na cabeça, foi silenciado
por um dos guardas. O que obrigou que fosse arrastado
inconsciente pelo resto do caminho até o local
destinado.
Passei a olhar o homem que
fora apontado. Guardavam uma boa semelhança física. Era
também baixo, forte, cabelos curtos, barba feita,
sisudo, com aspecto de militar raso. Tinha uma cara de
meia-lua que chupara um limão bem azedo. Ele se afastou
e foi mais para o alto da rua, de onde se tinha uma
visão melhor do que acontecia. Eu o segui.
Lá embaixo já haviam
amarrado o condenado pelas pernas e braços a quatro
cavalos e tentavam reanimá-lo para que ele próprio se
visse apartado dos braços e pernas.
Enquanto isso, passei a
conversar com o homem:
- O
senhor sabe o que ele fez? – Perguntei.
- Era
o chefe de um levante contra a coroa lá pelas Minas
Gerais. - Respondeu-me seco.
- Chefe
de um levante? Um homem tão simples? Um homem só? –
Disse eu admirado.
Ele deu-me com os ombros,
sem nada dizer. Esperou um pouco e falou, como que não
fosse comigo, como que pensasse alto:
-
Coitado.
Ninguém se lembrará dele. Daqui a pouco juntarão os
pedaços do esquartejado. A chuva que cairá mais à noite
limpará o sangue da praça. E ninguém que aqui esteve
saberá por que ele foi morto ou quem era. Nunca será um
herói! – Falando com um ar de culpa e alívio.
Nisso, lá embaixo os cavalos
começavam a puxar o homem que apenas deu um grito e
desmaiou antes de ser dividido em quatro ou cinco
partes. O homem ao meu lado quase se pôs a chorar.
- É
seu aparentado? – Perguntei-lhe.
-
Não. Ele sou
eu mesmo! – Respondeu-me de um modo estranho, antes de
levantar para seguir o seu caminho.
- Como
o senhor se chama? - Ainda perguntei.
- Xavier.
Joaquim Xavier. - Disse baixo, como se fosse um segredo
ou tivesse vergonha do nome.
E o homem estranho se foi
para que nunca mais se falasse dele.
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