A
cidade havia crescido, as ruas de paralelepípedo
tinham dado lugar ao asfalto, as casas antigas, ao
comércio e prédios. No entanto, o Jardim de Baixo, que
é como chamávamos a Praça da República, continuava
igual, conservam-se, de minha infância, a Matriz e a
Banca do Gaúcho. Mantive eu também o hábito de todo
domingo cedo comprar o jornal local para ler os poemas
de Armínia.
Nunca
fui de reclamar das mudanças e do progresso. Em geral,
gosto. Lamentava apenas a transformação da casa do
outro lado da praça em prédio, pois nela havia as mais
belas flores, tudo lá era mais: o verde mais verde, o
vermelho mais vivo. Creio que o próprio Jardim de
Baixo tinha certa inveja da quantidade de pássaros da
pracinha particular daquela casa.
Quando
piá (assim me chamava o Gaúcho), eu ia comprar o
Jornal para o Vô Laerth, especialmente para ler os
poemas de Armínia que, além do locais que citei, é a
grande lembrança dos tempos de guri. Foi com seus
poemas que aprendi a ler e, particularmente, peguei
gosto pela música, poesia, literatura e arte. Vô
Laerth musicava alguns versos da poeta e, no violão,
cantava para mim. Lembro-me especialmente de um que
conhecia cantado:
Você Indo
Armínia*
Você indo
Leva o meu amor
Pra lá dos confins
Contemplar o luar
A vida uma dádiva me criou
Você passa
Deixa graça em tudo
Fico mudo ao ouvir
O seu dom natural
Sua mágica luz, sua música
Quantas canções de amor eu não fiz
Sons que perderam a tempo e o lugar
Ler o momento
Deixá-lo seguir
Como o abrir de uma flor
Muda o tom do jardim
Quantas canções de amor eu não fiz
Porque não tinha você pra ouvir
Percebi que tudo tinha um porquê!
Não
mais tinha Vô Laerth, nem a casa do jardim, mas
ficaram a praça, a banca, a Matriz e a coluna de
poemas de Armínia, que já devia ser muito velha, mais,
sem faltar um domingo, publicava um novo poema.
A casa
agora era um prédio, os netos dos pássaros davam
preferência à praça, exceto pelas flores de um
apartamento do terceiro andar, em cujo jardim, de
menos de um metro quadrado se avistava as mais belas
flores jamais vistas, nem na velha casa. Fiquei
curioso por saber quem morava lá, mas nesses tempos
modernos ninguém conhecia mais ninguém. Até que um
morador antigo, como toda simplicidade do mundo disse:
“A Dona Armínia mora lá. Depois que ela vendeu a casa
para fazer o prédio, ficou morando lá”!
Atravessei a praça emocionado. Apesar da idade,
imaginava-a bela por suas palavras, via a velhinha em
algum vestido de chita florido, picinè antigo,
cabelos presos, tomando chá ao entardecer em frente à
praça. Tudo agora fazia sentido: a praça, a casa
antiga, o jardim, as poesias, até o prédio com aquele
tímido jardim ganhava uma lógica moderna. Eu só me
perguntava por que não havia nenhum livro dela.
O
interfone do apartamento demorou a atender. A voz da
senhora do outro lado dizia que Armínia viajara. A
resistência, só foi vencida depois de várias histórias
de minha infância, do Vô Laerth, das compras
dominicais de jornais, de vários nomes de poesias e,
finalmente, depois de cantar “Você Indo” no interfone
– a música de meu avô com a letra de Armínia eram a
união perfeita. Nada superaria, porém, a emoção de
conhecer Armínia e seus jardins, suas confusões de
flores, sentimentos, cheiros, momentos, luzes e cores.
Tudo,
porém, desmoronou ao abrir da porta do apartamento 32.
A casa era velha e mal cuidada, a mulher, que ainda
insistia em se
apresentar como "acompanhante" de Dona Armínia, era
horrível e provavelmente sempre fora, pois guardava
marcas de doenças e deficiências de infância.
Constrangido com tudo, acomodado na sala, o único
ponto que se destacava era o jardim da sacada, com
flores belas e coloridas - perfeitas!
-
Fiquei encantado com o jardim. Ele dá
vida ao prédio, empresta graça à vida! – falei
tentando achar o que dizer.
Nisso,
a velha, que percebia minha decepção, com um tom de
quem sabia tudo que ia se passar naquela conversa,
perguntou-me:
-
Quer conhecê-lo?
E nos
dirigimos à sacada. Era tudo artificial! A grama e as
flores lindas eram de plástico. Tudo que eu queria era
sair daquele lugar horrível correndo. A mulher, calma,
pediu para que eu ficasse mais um momento:
-
Meu jovem, a vida, às vezes, é cruel
com a gente. Tanto em nosso nascimento, quanto no
tempo que duramos. Alguns de nós talvez devessem
morrer logo, outros tantos, bons e belos, deveriam
durar mais. Mas a vida é a vida! E ela deve saber o
que faz.
Sua
voz ganhava belos tons e contornos e isso era tudo que
eu via enquanto ela falava.
-
Não queria que você subisse aqui, por
motivos óbvios - você os sabe agora. Perceba apenas
que você pode tratar as coisas que recebe e
devolvê-las ao mundo de outra forma. Não há como
manter o jardim da casa velha, mas quem vê lá debaixo
não precisa ver um prédio sem vida. Pra que mostrar a
cara marcada, se a alma continua jovem? Assim são as
flores, os sentimentos e a poesia.
A
senhora fez um pequena pausa antes de me encaminhar
A
senhora fez uma pequena pausa antes de me encaminhar à
porta e concluiu com um sorriso que amenizava a minha
culpa:
- Ah! Se disser a alguém um dia que me
conheceu, fale de flores e poesias.
Beijei
a testa daquela bela mulher e lembrei-me da música de
Armínia e Laerth. E, finalmente, entendi que tudo
tinha um porquê!
*Você Indo
é uma música de
Laerth Masieiro, amigo e cantor brasileiro que mora em
Portugal e estará em São Carlos em janeiro de 2007.