Apoio Cultural

sexta-feira, 10 de novembro de 2006     Número:  

Apoio Cultural

Outras Histórias

Paz Fugaz (Márcia Stamato)
A Turma do Marco 
As Time Goes By
Com o Passar do Tempo 
MPB (Chico 60 Anos)
A Sociedade Secreta 

Drogas 
Quatro, Cinco, Seis! 

Um dia Quase Normal
Eu, seo Terézio?! 
Noite sem Fim 

Sued

Paixão Pascalina

Bicicleta com Marcha
A Aposta (ou Quem Ganhou?) 
Dia a Dia

A Segunda Idade 
Sexo na Real 
O X do Problema 
Saca-rolhas

A Garota de Programa 

O Nome do Jogo

Tudo de Ruim

Tudo de Bom
Caso Microsoft

Uno Perpétuo 

O Golpe do Milton

Os Outros

A Cartomante

Pais e Filhas

Abaixo os Economistas

O Dia do Onanista

O Francês

Cinderelo

Nas Coxas Divinas

Pais & Filhos

A Missão
Cara ou Coroa?

E o resto?
Outros Carnavais 2 
Sorria! 

Flores Pascalinas

Quarta de Cinzas
Oito do Três

Geração Miojo 

Mata a cobra...
Que Nojo!

Gol Contra

O Feitiço e o Feiticeiro
21 de Abril 

Canberra

Todas as Mães

Surpresas de Outono (1ª parte)

Surpresas de Outono (2ª parte)

O Bom Pecador

Medo
Thereza quer se apaixonar 
Águas de Junho 

Comunhão

Talvez Paraty

O Relógio de Aniversário
Merda de Vida 

Passeio no Parque
Justiça 

Quase um Filme Americano

No Amor e Na Dança

Outros Carnavais
A Cola 

O meu tio que toca violino

O Retorno

D.I.O.

O Juízo de Papai Noel

Um dia, um herói.

Anos Curtos

O Caso das Canequinhas

A Bola

Porquê e Por quês

A Bola Torta

Okaidô!

A Balconista de shopping

Por alguém que me ouça

A Invenção do Diabo

Manual do Bom Leitor

Sugestões Eleitorais

Em quem vou votar

Mulheres só dão o cu para homens

Você foi... Você é
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

O Jardim da Poeta

 

Antonio Fais


A cidade havia crescido, as ruas de paralelepípedo tinham dado lugar ao asfalto, as casas antigas, ao comércio e prédios. No entanto, o Jardim de Baixo, que é como chamávamos a Praça da República, continuava igual, conservam-se, de minha infância, a Matriz e a Banca do Gaúcho. Mantive eu também o hábito de todo domingo cedo comprar o jornal local para ler os poemas de Armínia.

Nunca fui de reclamar das mudanças e do progresso. Em geral, gosto. Lamentava apenas a transformação da casa do outro lado da praça em prédio, pois nela havia as mais belas flores, tudo lá era mais: o verde mais verde, o vermelho mais vivo. Creio que o próprio Jardim de Baixo tinha certa inveja da quantidade de pássaros da pracinha particular daquela casa.

Quando piá (assim me chamava o Gaúcho), eu ia comprar o Jornal para o Vô Laerth, especialmente para ler os poemas de Armínia que, além do locais que citei, é a grande lembrança dos tempos de guri. Foi com seus poemas que aprendi a ler e, particularmente, peguei gosto pela música, poesia, literatura e arte. Vô Laerth musicava alguns versos da poeta e, no violão, cantava para mim. Lembro-me especialmente de um que conhecia cantado:

 

Você Indo

                                                          Armínia*

Você indo

Leva o meu amor

Pra lá dos confins

Contemplar o luar

A vida uma dádiva me criou

Você passa

Deixa graça em tudo

Fico mudo ao ouvir

O seu dom natural

Sua mágica luz, sua música

Quantas canções de amor eu não fiz

Sons que perderam a tempo e o lugar

Ler o momento

Deixá-lo seguir

Como o abrir de uma flor

Muda o tom do jardim

Quantas canções de amor eu não fiz

Porque não tinha você pra ouvir

 

Percebi que tudo tinha um porquê!

Não mais tinha Vô Laerth, nem a casa do jardim, mas ficaram a praça, a banca, a Matriz  e a coluna de poemas de Armínia, que já devia ser muito velha, mais, sem faltar um domingo, publicava um novo poema.

A casa agora era um prédio, os netos dos pássaros davam preferência à praça, exceto pelas flores de um apartamento do terceiro andar, em cujo jardim, de menos de um metro quadrado se avistava as mais belas flores jamais vistas, nem na velha casa. Fiquei curioso por saber quem morava lá, mas nesses tempos modernos ninguém conhecia mais ninguém. Até que um morador antigo, como toda simplicidade do mundo disse: “A Dona Armínia mora lá. Depois que ela vendeu a casa para fazer o prédio, ficou morando lá”!

Atravessei a praça emocionado. Apesar da idade, imaginava-a bela por suas palavras, via a velhinha em algum vestido de chita florido, picinè antigo, cabelos presos, tomando chá ao entardecer em frente à praça. Tudo agora fazia sentido: a praça, a casa antiga, o jardim, as poesias, até o prédio com aquele tímido jardim ganhava uma lógica moderna. Eu só me perguntava por que não havia nenhum livro dela.

O interfone do apartamento demorou a atender. A voz da senhora do outro lado dizia que Armínia viajara. A resistência, só foi vencida depois de várias histórias de minha infância, do Vô Laerth, das compras dominicais de jornais, de vários nomes de poesias e, finalmente, depois de cantar “Você Indo” no interfone – a música de meu avô com a letra de Armínia eram a união perfeita. Nada superaria, porém, a emoção de conhecer Armínia e seus jardins, suas confusões de flores, sentimentos, cheiros, momentos, luzes e cores.

Tudo, porém, desmoronou ao abrir da porta do apartamento 32. A casa era velha e mal cuidada, a mulher, que ainda insistia em se apresentar como "acompanhante" de Dona Armínia, era horrível e provavelmente sempre fora, pois guardava marcas de doenças e deficiências de infância. Constrangido com tudo, acomodado na sala, o único ponto que se destacava era o jardim da sacada, com flores belas e coloridas - perfeitas!

- Fiquei encantado com o jardim. Ele dá vida ao prédio, empresta graça à vida! – falei tentando achar o que dizer.

Nisso, a velha, que percebia minha decepção, com um tom de quem sabia tudo que ia se passar naquela conversa, perguntou-me:

-    Quer conhecê-lo?

E nos dirigimos à sacada. Era tudo artificial! A grama e as flores lindas eram de plástico. Tudo que eu queria era sair daquele lugar horrível correndo. A mulher, calma, pediu para que eu ficasse mais um momento:

- Meu jovem, a vida, às vezes, é cruel com a gente. Tanto em nosso nascimento, quanto no tempo que duramos. Alguns de nós talvez devessem morrer logo, outros tantos, bons e belos, deveriam durar mais. Mas a vida é a vida! E ela deve saber o que faz.

Sua voz ganhava belos tons e contornos e isso era tudo que eu via enquanto ela falava.

-  Não queria que você subisse aqui, por motivos óbvios - você os sabe agora. Perceba apenas que você pode tratar as coisas que recebe e devolvê-las ao mundo de outra forma. Não há como manter o jardim da casa velha, mas quem vê lá debaixo não precisa ver um prédio sem vida. Pra que mostrar a cara marcada, se a alma continua jovem? Assim são as flores, os sentimentos e a poesia.

A senhora fez um pequena pausa antes de me encaminhar   

A senhora fez uma pequena pausa antes de me encaminhar à porta e concluiu com um sorriso que amenizava a minha culpa:

- Ah! Se disser a alguém um dia que me conheceu, fale de flores e poesias.

Beijei a testa daquela bela mulher e lembrei-me da música de Armínia e Laerth. E, finalmente, entendi que tudo tinha um porquê!

 

*Você Indo é uma música de Laerth Masieiro, amigo e cantor brasileiro que mora em Portugal e estará em São Carlos em janeiro de 2007.